8
jan
2009

Reflexos da crise no trabalho – parte 2

Algumas semanas atrás comentei do impacto que a crise estava fazendo no meu trabalho.

Foram cortes de gastos com material para empresa (cartões, papéis timbrados, post-its, etc), taxis (sim, taxi, o veículo) e quem ganharia bônus, ficou de mãos abanando.

Pois é, mas a crise nao parou por aí. Na última semana de trabalho o Diretor da empresa nos chamou para uma reunião emergencial, onde seria mandatória a presença de todos. Coisa de 30 minutos.

Nos reunimos no studio (onde ficam os criativos), e ele nos contou que mesmo com cortes, a empresa havia fechado o ano com o revenue 40% menor que o do ano anterior. Isso sem contar que esse ano tiveram investimentos em equipe, mais gente contratada, etc, e era de se esperar um aumento de 17% de lucro em relação ao ano anterior.

Pra quem não lida com budgets/investimentos pode parecer absurdo querer que uma empresa cresça 17% em um ano, mas seria possível caso nossos clientes (também impactados pela crise) não tivessem cancelado jobs/fees e novos jobs (concorrência) não houvessem sido cancelados e postergados.

Apesar disso, tem uma coisa que não tenho do que reclamar: nosso Diretor cuida de pessoas. Foi a primeira frase que ouvi quando entrei na empresa. “Keith looks after people“.

E com esse pensamento, ao invés de demitir os funcionários, ele pediu para que aceitássemos um paycut. Paycut significa em simples palavras: corte no salário.

A “proposta” foi aceita, claro. Além disso, somos uma empresa pequena onde todos se conhecem e são abertos, entao aconteceu uma espécie de bate-papo depois da notícia, pra ver como poderíamos fazer a empresa voltar a lucrar em 2009.

Isso talvez não aconteceria no Brasil com todos os funcionários, talvez o Conselho e Diretoria, mas não com todos em uma mesma sala.

Infelizmente com essa notícia algumas coisas voltaram a estaca zero. Cursos fora (ou pagos) estao fora de cogitação. Além disso, tenho trabalhado quase dobrado (não em horas, apesar de meu almoço que era de 18 minutos passou pra 3 minutos com pausa) para tentarmos sair da fase estratégica e cair na produção e criação de novas propostas, afinal, é o que faz gerar dinheiro.

Mesmo trabalhando bastante, evito sair depois das 18:30, 19 horas, para não estressar. Engraçado que não sinto que estou sendo explorado ou qualquer outro adjetivo que usaria no Brasil. As “contas” da empresa são tão abertas e a maneira como nosso Diretor conversou foi tão sincera que é óbvio que estamos com um problema, e não adianta tentar fugir ou tocar o foda-se e falar “a empresa que se vire”.

E nesse espírito que confio que vamos superar essa. A redução de salários variou de 3% a 5%, dependendo do ganho anual. Muitos parecem ter deixado de ser crianças da fazenda pra colocar a mão na massa. Quando temos reunião no cliente, o pessoal ja não pede reembolso de gasolina ou estacionamento, pois essa é uma forma também de ajudar.

Parece que eu nunca faria isso, mas sim, estou fazendo. Enviei uma documentação para UK pela DHL (encomenda “urgente” pra chegar antes do Natal) e deu 22 euros. Também não pedi reembolso, e nem vou pedir. Acho que esse esforço volta de uma forma melhor pra gente. Seja psicologicamente, seja monetariamente.

[UPDATE]

Alguns me perguntaram “E aí Edu, mas você fica ou ta procurando outra coisa?”

Claro que temos que nos preparar para o pior, e não paro de enviar CV para outras empresas. Aliás, nunca parei. Mas comeca a ficar um critério mais seletivo também.

Por outro lado, essa crise está afetando as outras agências também, então o cenário não deve mudar muito.

Existe o risco? Existe. Mas estamos sempre correndo riscos, seja no emprego, seja largando tudo pra vir pra Irlanda. O Homero mesmo já disse e assino embaixo, foi pra isso que viemos.

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5 comentário para “Reflexos da crise no trabalho – parte 2”

  1. Miranda, quinta-feira, janeiro 8th, 2009

    Caramba, é uma realidade nunca nem imaginada por mim, essa transparência entre funcionários e board. Que seus esforços rendam frutos.

  2. Maguinho, quinta-feira, janeiro 8th, 2009

    Homero, como vi nos comentarios que vc tinha autorizado, coloquei seu ultimo post no meu blog, pois achei sensacional o que vc escreveu.

    Edu, que legal, a visao da sua empresa, e e claro, dos funcionarios e sua tb. O mundo seria bem melhor se tivessemos mais pessoas como vc.

    abracos

  3. Anitcha, quinta-feira, janeiro 8th, 2009

    Adu, estou indo pra Irlanda como turista em 30/01. Isso já era uma vontade conhecer o país, pq eu sou mesmo uma aventureira… de uma semana pra cá, uma amiga minha que mora em Dublin me questionou pq eu não morava lá, já que uma pessoa ia sair do apartamento e estava sobrando uma vaga, eu sempre tive vontade de estudar inglês fora do Brasil. Eu disse que ia pensar… Só que um outro fato aconteceu ontem, acabei de ser demitida. Por causa de problemas entre os sócios, a empresa que eu trabalhava fechou e agora estou mto perdida. Não sei se aceito a proposta da minha amiga ou não, ainda mais lendo esse seu post sobre a crise econômica. Minha amiga disse que em qq lugar do mundo que eu tiver, terá crise, tanto que fui demitida ontem. Outro problema é que ão dá tempo de eu comprar o curso de inglês aqui no Brasil quando eu tomar a decisão, então, teria que comprar aí em Dublin. Só que minhas amigas não sabem se isso é possível. Vc sabe se é possível? Vc acha que é um boa idéia sair do Brasil agora? A amiga que me chamou pra morar com ela disse que vale a pena se o meu objetivo é estudar e não ganhar dinheiro, mas uma outra, que tb mora em Dublin disse que não faria isso agora… A minha cabeça está confusa.

  4. Edu Giansante, quinta-feira, janeiro 8th, 2009

    Fala Miranda, pois é… sao algumas coisas que percebi que mudaram em mim, talvez eu fosse um pouco mais egoista quando estava trabalhando no Brasil, mas como disse, pode ser tudo uma questao de como as coisas sao expostas aos funcionarios.

    Mestre Mago! Que bom seria se todos tivessem a mesma boa vontade e carisma que voce meu velho! Nao some nao, vamos marcar de tocar uma viola e trocar ideias! Abracao

    Anitcha, existe sim a possibilidade de vir como turista.
    veja:
    http://www.e-dublin.com.br/2008/08/visto-de-turista.html

    Sobre medos… recomendo a leitura, é um texto da Rosangela, leitora e participante ativissima do grupo de emails:
    http://www.e-dublin.com.br/2008/09/est-com-dvida-pra-vir-medos-e.html

  5. Mocotó, quinta-feira, janeiro 8th, 2009

    Clap Clap Clap ( para quem não entendeu isso são “palmas” rss)
    Para sua empresa pela transparencia e para você pela boa vontade e dedicação. Já trabalhei assim em pequeno comercio no Brasil e foi uma das melhores relações que ja tive com superiores.

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