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Crônicas da Ilha

Batatas, berinjelas e um sopão especial

Leandro Mota postou em 19 nov 2016

Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

Ela só queria comer. Estava morrendo de fome. Passou parte das intermináveis horas dentro do avião pensando na comida que lhe serviriam quando chegasse em Dublin.

Talvez um pratão de fish & chips – pensou.

A expectativa aumentou assim que pisou na residência da host family.

We are going out for dinner tonight!

O estômago pulou de alegria.

Aonde será que vão me levar? – questionou-se.

Seus pensamentos passaram por restaurantes franceses, pizzarias e até por uma lanchonete tradicional.

Depois lembrou-se do bistrô da família e pensou:

-Vamos lá, claro!

Entretanto, durante os palpites mentais sobre o tão esperado jantar, ela descobriu que “we”, em inglês, naquele momento significava um “nós” diferente, porque era um “nós, SEM você”.

– Fique à vontade para pegar qualquer coisa na cozinha. Voltaremos mais tarde.

Decepcionada, mas ainda faminta, ela saiu à caça. Diante de armários tão vazios quanto a sua barriga, optou por uma sopa instantânea.

Acho que não vai me encher, pensou.

Foi aí que os olhos brilharam, o sorriso surgiu e a boca encheu-se d’água.

O saquinho colorido estava ali em cima da pia, escancarado, oferecendo-se, como quem diz: coma-me.

Foi exatamente o que ela fez.

Os pedaços de frango congelados deram sustança ao prato improvisado.

“A melhor canja da galinha da minha vida desde que cheguei na Irlanda” foi o seu pensamento.

No dia seguinte, a constatação de que o mesmo saquinho colorido estava abastecendo o pote de comida do Max, o cachorro da família.

Desconfio que a história da minha flatmate já tenha sido contada em pelo menos dez idiomas (eu mesmo já espalhei para espanhóis, italianos, irlandeses, coreanos, russos e até árabes).

Não se assuste se um dia desses algum gringo te perguntar se “guisado de ração” é comida típica do Brasil.

Para reforçar a lenda, o pessoal aqui de casa está cogitando organizar um sopão do Max para a galera. Seria genial, mas falta-nos coragem.

A partir de então, olho com desconfiança para todo prato que me oferecem por aqui, especialmente aqueles preparados pelo romeno que mora no quarto ao lado. Certa vez, ele fritou berinjelas gigantes em uma assadeira usando duas bocas do fogão.

– É para uma salada. Vocês vão adorar!

Nem ele comeu.

Na minha segunda semana em Dublin, em uma casa de irlandeses, experimentei (ou “tentei”, como dizem muitos brasileiros por aqui) uma sobremesa tão salgada quanto as batatas do jantar. Perguntei quais eram os ingredientes do “bolo” e eles responderam:

– Batatas!

No dia seguinte, comemos frango com o molho mais açucarado do mundo. Penso que talvez a moça tenha trocado os potinhos de tempero. Minhas papilas gustativas já foram tantas vezes surpreendidas desde que eu cheguei aqui que passei a achar que elas eram o problema. Talvez a minha língua seja “daltônica”.

Devo dizer que esse “privilégio” não é apenas dos gringos, pois há um mês fui convidado para um churrasco brasileiro e, chegando lá, dei de cara com uma costela de algum animal não identificado temperada com um molho vermelho/rosa/roxo feito de sei lá o quê.

– Compramos em um mercadinho chinês.

Depois de umas cinco garrafas de cerveja, lá estava eu saboreando aquela iguaria como se fosse o último pedaço de carne da vida. O molho era tão concetrado que me rendeu, até hoje, resquícios na unha. Aqui vai uma confissão: tentei usar acetona, mas não deu certo.

De todas as aventuras alimentícias na Irlanda, a mais bem-sucedida foi o meu encontro com o Irish breakfast. Se você está no Brasil e não tem a menor ideia do que eu estou falando, pense em um x-tudo no prato. Adicione um pouco de calorias, algumas pitadas exageradas de gordura e duas porções extras de substâncias adiposas. Frite tudo em uma piscina de óleo e… Voilá! Eis a refeição mais saborosa da ilha. E sabe qual é a melhor parte de tudo isso? É tanta comida que você acaba economizando no almoço e no jantar. Embora, dependendo da sensibilidade do seu estômago, possa ser necessário ir à farmácia para comprar um sachê de sal de fruta.

O próximo passo, se eu tomar coragem, será experimentar a comida dos meus vizinhos indianos. Minhas referências daquela culinária não são das mais positivas, é verdade, mas o cheiro que emana do apartamento ao lado acabou me convencendo. O problema, meus caros, é que jamais trocamos uma palavra. Perdi as contas de quantos “bom dias” já falei para o casal sem nunca ter sido correspondido. Meu flatmate tem uma ideia: convidá-los primeiro para um jantar tipicamente brasileiro. Espero que eles gostem do nosso “guisado de ração”.

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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