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Crônicas da Ilha

Encontros e despedidas

Leandro Mota postou em 17 out 2013

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É fácil identificar quem acabou de chegar em Dublin. O olhar de pidão estampado no rosto dispensa a plaquinha grudada na testa com o dizer “procura-se amigos”. Quando os vejo, lembro do cachorro da minha mãe implorando por comida no pé da mesa. Comigo foi assim. Na primeira semana na cidade, vivi dias de Simba, o poodle da genitora. Com orelhas abaixadas, rabo entre as pernas e olhos ligeiramente espremidos, fitava todas as pessoas em busca de uma amizade em potencial.

– Quer ser meu amigo? Tenho referências. Posso deixar meu currículo? Tirando a parte das experiências como kitchen porter, o resto é tudo verdade. Juro!

Se em tempos de guerra urubu vira frango, eu não poderia abrir mão de qualquer oportunidade de socialização. No auge dos meus quase trinta anos, me vi participando de uma caça ao tesouro de ovos de chocolate. Fui duas vezes no city tour organizado pela escola. Paguei preciosos doze euros para participar de uma excursão cujo destino era uma gruta menor do que o meu banheiro. Tive que fazer cara de triste durante a festa de despedida de uma menina que eu nunca havia visto na vida. Puxei assunto com a maioria dos coreanos/japoneses que encontrei pela frente. E, por fim, dei trela para todas as pessoas que me abordavam na Grafton pedindo doação.

Com a metralhadora giratória apontada para todos os lados, era impossível errar o alvo. Em poucas semanas, já estava rodeado de novos colegas. Foram dias de esbórnia: festas, pubs, risadas, pubs, passeios, pubs, infinitas idas ao Stephen’s Green, pubs, peladas no Phoenix Park, pubs, museus, pubs, pubs, pubs e mais alguns pubs – o suficiente para deixar o Seu Arthur Guinness e o tal de John Smithwick orgulhosos.

Mas, porém, entretanto, todavia, contudo toda bonança tem seu fim. Uma lição que Ned Stark deixou ao mundo antes de ser covardemente decapitado (maldito Joffrey). Se em Westeros winter is coming, em Dublin ele costuma chegar depois do seu primeiro mês na cidade. É quando a saudade dos amigos que ficaram no Brasil aperta e você começa a pensar, mesmo que remotamente, na possibilidade de antecipar a volta. O extrato bancário em contagem regressiva potencializa o processo. É como uma bomba-relógio prestes a estourar. Sem dinheiro e com sentimento de nostalgia, a vontade de sair de casa cai drasticamente e toda aquela galera do início vai se transformando gradativamente em um grupo cada vez menor. E quando você se dá conta, restam poucas pessoas ao seu redor. E são justamente estas que entrarão para a história da sua vida.

Admito que me senti estranho na primeira vez em que me peguei desabafando com o cara que dividia o quarto comigo. Era o auge de uma relação que tinha começado havia poucas semanas. Nos primeiros dias, dinheiro, passaporte, carteira, iPad e qualquer coisa que valia mais de cem euros ficaram devidamente trancados na mala com cadeado. Saíram de lá quando ele me procurou dizendo que alguém havia dado cinquenta euros a mais para pagar o aluguel. Dali em diante, o laço de confiança só se fortaleceu. Apesar de ser mais novo, ele passou a ser chamado de “pai”. Sua namorada, moradora do quarto ao lado, virou “mãe”. Os dois ganharam um filho. E sem saber, viraram avós graças ao colombiano e ao coreano que me chamavam de “father”.

A minha “primeira” família em Dublin ainda tinha o sobrinho grandalhão que tem um coração cujo tamanho aumenta proporcionalmente à quantidade de pints ingeridas, as duas tias que não se desgrudam de jeito nenhum, as primas que cuidam da ressaca de todo mundo e as sobrinhas gringas que conhecem absolutamente tudo sobre Michel Teló, Camaro Amarelo, Gusttavo Lima e você. Tem também uma cambada de agregados que aparece na hora do rango com uma caixa de cerveja debaixo do braço perguntando se tem espaço na geladeira. No final da noite, claro, são estes quem colocam pressão para todos irem para a Dicey’s. Geralmente com sucesso.

Quando tudo parecia bem, veio o baque:

– Velho, preciso passar a conta da UPC pro seu nome porque meu voo já é na semana que vem.

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– Velho, você me ouviu?

Naquele momento caiu a ficha. Normalmente, amizade em Dublin tem prazo de validade: seis meses. É o tempo de duração de um curso, obrigatório para se conseguir o visto de um ano. Quem fica, sente falta de quem foi e precisa se acostumar com as cada vez mais frequentes farewell parties. Certa vez, cansada de dar tchau, uma amiga organizou uma festa para celebrar a permanência dos que não foram. Semana passada, os que não foram se despediram dela.

Sei que grande parte da minha “primeira” família estará me esperando no Brasil. Enquanto isso, vou atrás de uma “segunda”, com cada vez menos compatriotas e cada vez mais gringos. Novos laços de confiança irão ser construídos. Até lá, a carteira volta para a mala trancada. E muitos anúncios de vagas serão anunciados no Daft.

Ontem, um conhecido me perguntou há quanto tempo estou morando por aqui. Surpreendeu-se quando descobriu que desembarquei na ilha meses atrás. O meu olhar de Simba confundiu-o. Ou talvez, tenha revelado o outro lado da moeda. “É fácil identificar quem está vivendo há bastante tempo em Dublin”, deve ter pensado.

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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