Posts com tag ‘É pra isso que eu vim’

19
out
2009

Porque os brasileiros vão embora da Irlanda?

Nós sempre falamos de vir, porque vir, como se preparar pra vir, mas após ler uma reportagem recente, resolvi comentar um pouco sobre a volta. Porque algumas pessoas, mesmo que empregadas, voltam para seu país de origem?

O exemplo que vou usar é do jogador Adriano. Graças a uma carreira de sucesso no Brasil, Adriano foi parar na Europa. Defendeu grandes clubes, era artilheiro de temporadas, e tinha um contrato até o final de 2010 com o Inter de Milão.

Adriano tinha fama, dinheiro, uma boa vida na Europa, mas resolveu voltar para o Brasil. Reincidiu o contrato e foi parar no Flamengo, em sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Ele disse em uma entrevista recente no Globo Esporte:
Eu precisava disso. Aqui (no Brasil) as pessoas falam a minha língua, entendem a minha cultura. É muito mais fácil. Volto para casa após os jogos e tenho minha família, os meus amigos. Isso me faz muito mais feliz do que antes. Aqui é Brasil. Apesar das dificuldades somos um povo vencedor“.

Saudade? Não necessariamente. Adriano se sentia deslocado, um peixe fora d’água.


As vezes vejo brasileiros com bons empregos, vivendo razoavelmente bem, alguns a mais de 2, 3 anos aqui na Irlanda, e de repente eles simplesmente voltam pro Brasil. Muitos vem pra viver essa experiencia em 1 ano, outros em 3, 5. Mas a maioria vem com um plano de um dia voltar.

Porque isso acontece? Será que estão se sentindo deslocados? Já deu o que tinha que dar?

Acredito que tudo na vida é uma experiência. A maior diferença aqui, é que a experiência é mais intensa. Acontece de repente, muda muito rápido e muda muito.

Por melhor que seja seu inglês, você sempre vai ter um momento que vai sentir um certo alívio ao falar português com um brasileiro. Não pela fluência da língua, mas pela familiaridade cultural, pela gesticulação em comum, pelo mesmo repertório histórico. E é por isso que muitos criam um apego muito rápido com algumas pessoas ou flatmates.

Seu repertório de vida pode não ser o mesmo de outro brasileiro, mas ambos sabem o que é o trânsito de São Paulo, o queijo de Minas, O chimarrão do Sul, o carnaval de Salvador ou as praias do Rio.

Outro fator que acredito ser crucial é a família e os amigos. A família do ponto de vista da segurança. Eu, particularmente, nunca fui fã de festas de família e participava muito pouco. Porém, quando tenho uma boa notícia pra contar, a primeira pessoa que penso é minha mãe.

Ouvir o que meu irmão esta fazendo ou evoluindo me dá vontade de participar mais da vida dele. Não considero isso “saudade”, mas sim envolvimento. Interesse em se manter próximo de alguém que você ama.

E os amigos? Quem nunca foi pra um lugar aqui e pensou: “Ah, se aquele meu amigo X estivesse aqui! É a cara dele!”

Acompanhar e-mails dos seus amigos programando a viagem de fim de ano, a cervejinha do fim de semana ou mesmo contando do almoço com o pessoal do trabalho. São momentos que você sente ter perdido, apesar de outros milhares que você ganha aqui.

Não existe certo e errado. Você faz escolhas. É um desafio de uma experiência que infelizmente não vai ser compartilhada fisicamente com seus amigos do Brasil ou familiares. Porém, será sua história. A história que você está fazendo, pra caso pense em voltar, poder sentar na mesa de bar e contar como foi.

Adriano, o jogador, continua recebendo propostas, mas não aceitou nenhuma até agora.

E você? Vai aceitar a proposta de virar estudante na Irlanda ou vai preferir se acolher à sua vida no Brasil?

Imagens:
http://soccerlens.com
http://www.lazeresportes.com
http://globo.com

9
out
2009

Solidão a dois

É clichê dizer que tudo nesta vida tem os dois lados: bom e ruim! Mas nem sempre a gente consegue enxergar como algo pode ser ruim, ou como algo pode se tornar ruim em algum momento. Só a experiência faz com que descubramos isso. Antes que eu seja apedrejado, queria dizer que o que vou contar aqui é apenas um sentimento ruim que passa e que não chega nem perto dos benefícios. Qual é, ou pode ser, o lado ruim de ir com um amigo para a Irlanda?

A minha resposta é que não existe NENHUM lado ruim nisso, entretanto, somos seres humanos e temos sentimentos, coisas que não conseguimos controlar. Quem é capaz de assumir que sente inveja? Quem é capaz de demonstrar que se sente excluído, diferente, mais fraco? São sentimentos que alguns controlam, e põe a razão acima e superam sem problemas. Outros, menos racionais, além de ter, revelam os seus sentimentos, impulsivamente, ou mesmo sem perceber, sem querer, sem maldade.
Há alguns dias estava conversando com uma amiga brasileira que está em Dublin e ela passou uma situação semelhante a minha. Assim como eu, ela foi para Dublin com uma amiga, um ótimo incentivo e conforto principalmente para o primeiro mês longe de casa.
No caso dela, a situação estava um pouco mais difícil, 2 meses haviam passado e nenhuma delas tinha conseguido emprego até que… A amiga, conseguiu um emprego!
Compra cerveja! Estoura o champagne! Chama os amigos! Aaaaaaaeeeee minha amiga conseguiu o emprego… Parabéns, vamos celebrar!
No dia… no dia seguinte… hmmm… pouts! Caiu a ficha! EU SOU A ÚNICA DESEMPREGADA! Aaaaaaaahhhhhhh, manhêêêê! Bate aquele Leve Desespero.

De um lado, a alegria pelo amigo que consegue um emprego! Do outro, uma mistura de sentimentos: inveja? Não, que isso, eu não tenho isso! Não passou em nenhum momento que eu queria estar no lugar dela! Solidão? Não, imagina, por que? Só porque agora todos meus amigos(você só tem um ou dois) estão empregados menos eu? Só porque ela vai ficar fora trabalhando e eu vou ficar enfurnada procurando emprego? Orgulho ferido? não é só porque eu falo inglês melhor, tenho uma experiência maior que vou ficar com o orgulho ferido porque ela conseguiu emprego antes de mim… Autoflagelação? Eu nem me acho tão incompetente assim, tá bom! sou incompetente, todos conseguem menos eu… o que fiz de errado? Desespero? Não pode estar falando sério, mas de amanhã em diante não fico menos do que 12h por dia enviando currículos, até falto na escola se precisar (e falto mesmo, mas será que ajuda mesmo?)…
Não adianta negar, tudo que acontece a nosso redor nos influencia de alguma forma, principalmente quando se trata de alguém próximo. O cigarro, a comida ou a cama viram seu melhor amigo por alguns dias, por algumas horas, minutos ou segundos… cada um reage de uma forma!
Esta é uma das diferenças de ir sozinho ou “acompanhado”. Ir sozinho, é ir preparado a ficar sozinho deste o começo, desde o momento mais difícil, quando tudo é novo e aprendizado. Ir acompanhado, é a possibilidade ainda ter um porto seguro, alguém para dividir aprendizados, experiências, a solidão, a tristeza e principalmente as alegrias. O único problema é que nem sempre as alegrias são divisíveis, muito menos as tristezas!
Qual a melhor forma de lidar com isso? Rezar? Buscar semelhantes? Se concentrar nas suas forças? Cada um sabe do seu… para mim, a melhor forma, sempre é tentar transformar qualquer sentimento ruim em alguma força interior que te faça mover adiante ainda com mais ímpeto: “Se ele conseguiu, eu também posso!” Fácil? Não, não é… Mas só é vencedor quem enfrenta batalhas e supera desafios! Pegue o escudo da razão e a espada da força de vontade, e se junte àqueles que atingiram seus objetivos seja sozinho, ou sozinho em dois…
Originalmente publicado em 27/04/09.
24
jun
2009

Fatos Reais! Pai Irlandês

Dentre os vários aprendizados que temos como intercambistas, o trato com o dinheiro é um deles. Muitas vezes porque estamos com a conta completamente zeradas e finalmente nos vemos na situação em que precisamos controlar até a quantidade ônibus que pegamos (ou deixar de pegar ônibus e ir a pé).
Acredito que nós (eu e Edu) tivemos uma oportunidade de ver ainda um outro lado a respeito do “trato com o dinheiro”. Como vivíamos com irlandeses, pudemos ter a oportunidade de entender como eles viam e lidavam com o dinheiro que tinham. Mesmo com uma relação um pouco distante, algumas atitudes foram marcantes para nós.
Quem acompanha o blog há mais tempo ou quem nos conhece no dia-a-dia sabe que chamamos um de nossos flatmates de “Pai”. Nem todos sabem exatamente a justificativa para isso, mas agora todos saberão!
Fato 1

Logo que nos mudamos para a casa, haviam dois computadores jogados no chão, quebrados. Certo dia o Edu resolveu perguntar se eles funcionavam. O Pai, técnico em informática, começou a mexer no computador. Ao final, descobriu que realmente não tinha jeito, nada poderia ser feito com aquele computador.
Cerca de uma semana depois, ele chega em casa com um computador novo: um Core Duo Quad,2 gigas de RAM, Monitor 17″ widescreen, etc. Ele instalou tudo e deixou lá para que usássemos. O detalhe é que ele mal usou o computador, já que ele tinha um notebook, e normalmente ficava no quarto dele fazendo as coisas dele. O computador TOP de linha foi praticamente um presente pra nós e um investimento sem uso pra ele.
Fato 2

Meses depois, chegando o inverno, descobrimos que por conta das pilantragens de um antigo flatmate, o gás havia sido cortado. Isso significa que estávamos sem aquecedor para o inverno.
Ele fez algumas ligações pra o Board Gas (empresa fornecedora do gás) e algum tempo depois tinhamos gás em nossa casa novamente. Nunca ficamos sabendo como ele havia reativado, até que um dia, estávamos em uma festinha na casa do vizinho e ele contou: ele pagou 600 euros que estavam atrasados para que o gás voltasse a funcionar.
Ele contou isso meses depois, nunca cobrou um centavo por causa disso… Eu não consigo imaginar um brasileiro fazendo isso. Se não fosse ele, ficaríamos sem gás, porque era a época mais dura que passei por lá.
Fato 3
Quando eu decidi que eu voltaria para o Brasil e nos mudaríamos da casa, fizemos o anuncio no Daft mas não tivemos nenhum retorno.
Conversamos com ele que estava difícil, que não havíamos recebido nenhum contato.
Ele pediu para esperarmos mais uma semana, e depois disso ele aceitou diminuir 50 euros do preço do nosso quarto, e aumentar este valor no quarto dele. Ele entendeu que janeiro / fevereiro é o pior período para alugar a casa. Além disso, sabia que muita gente estava indo embora por causa da crise.
A primeira proposta dele foi para baixarmos em 45 euros. Mas realmente não era necessário, e seria completamente injusto com ele.
Fato 4
Haveriam várias historinhas do dia-a-dia para contar, mas prefiro resumir isto em um só fato.
Sabendo da nossa dificuldade financeira, ele nunca cobrou pela garrafa térmica nova que comprou, pelo ferro de passar. Pagou cerveja na balada para mim, quis pagar ma chapelaria pra eu deixar minha mala, entre outras pequenas coisas que mostravam seu “desapego” ao dinheiro.
Não quero dizer que todos são assim, existem também os pilantras como já dissemos aqui!. Mas pelo que percebi do irlandeses que conheci, existe uma grande porcetagem que realmente é assim. Podemos justificar isso com o fato de que eles tem uma vida mais bem estrutura e poucos tem que realmente contar os centavos no final do mês (como muitos brasileiros que estão na Irlanda).
Acredito que em nossa sociedade capitalista / competitiva e principalmente sub-desenvolvida aprendemos a ver o dinheiro como a coisa mais importante de nossas vidas, fazendo dele a prioridade máxima. Acredito que esta convivência me fez repensar um pouco esta questão, e talvez ser mais brando em relação a dinheiro, principalmente com as pessoas ao meu redor. Vivendo e aprendendo, é pra isso que viemos… a terra!
18
jun
2009

Aventuras de uma Intercambista!

Essa história foi contada na nossa lista de discussão pela Cla Araujo. Para completar, a nossa já tradicicional Rô (mãe de todos os intercambistas na Irlanda) enviou suas reflexões a respeito!

Complete a leitura antes de julgar as ações dela, é uma história incrível! =o)
A hhistória da Cla!

Então, gente, deixa eu contar pra vcs o que me aconteceu. Se preparem, que eu escrevi muito!! Eu fui pra Dublin em setembro de 2007, e a idéia inicial era ficar 6 meses lá, mais um viajando pela Europa, depois vir embora. Estudei na Language Centre of Ireland – LCI (qualquer hora eu faço a avaliação dela pra vcs, mas já adianto que gostei muito), fui pra ficar um mês em host-family mas acabei morando
lá até ir embora de Dublin (me custou muuuito dinheiro, mas foi muito bom, a melhor coisa que eu poderia ter feito). Bom, meu visto de estudante acabava no início de maio, junto com o curso. Nessa época eu estava planejando ficar ainda mais uns dois meses em Dublin, queria pelo menos pegar um pouco do verão. Até pensei em pagar outro curso de inglês pra estender o visto, mas desisti por causa dos preços e por
meu nível de inglês já ser avançado. Achei que daria pra ficar lá como turista (geralmente, se vc entra como turista, pode ficar até 3 meses na Irlanda sem visto). Fui me informar na Garda, conversei com algumas pessoas, e todos me falaram que em uma situação como a minha geralmente basta sair da Irlanda por alguns dias e na hora de voltar explicar pro oficial da imigração que eu quero entrar como turista.
Claro que não é garantido que eu entraria, mas não costuma dar problema.

Meu curso acabou no dia 5 de maio. Lá pro dia 19 eu viajei para Paris, e voltei pra Dublin uma semana depois. No aeroporto, na imigração, eu expliquei pro oficial que meu visto de estudante já tinha vencido e que eu queria entrar como turista. Ele me perguntou pra que eu estava voltando, e pra simplificar (na verdade fiquei com preguiça de responder a muitas perguntas) eu falei que as minhas coisas estavam
todas lá e que meu vôo pro Brasil saía de lá, e mostrei minha passagem (que estava marcada pro dia 6 de junho). O cara olhou, viu que estava tudo ok e me deixou ir.

Uma semana depois disso eu resolvi ir pra Londres, pra passar uns 3 dias. Nesse meio tempo eu remarquei a minha passagem pro Brasil pra agosto (eu já ia remarcar de qualquer jeito, só deixei pra última hora). Fiquei com um certo receio de sair da Irlanda de novo, mas como tinha sido tranquilo na minha volta de Paris, e tinha um amigo que eu queria muito encontrar em Londres, resolvi arriscar. Fui e voltei de
ônibus. A entrada na Inglaterra foi tranquila, o oficial fez umas poucas perguntas e olhou meu passaporte, mas nem carimbou (a gente tava no porto, parecia um lugar um pouco improvisado, e ele não tava carimbando o passaporte de ninguém). Chegamos em Londres de manhã, e logo no meu primeiro dia lá, enquanto eu estava passeando pelo Hyde Park (recomendo muitíssimo!), me apaixonei pela cidade e decidi que era ali que eu queria passar meu verão. A minha amiga que me recebeu
trabalhava num restaurante turco que, por coincidência, estava precisando de garçonete, e eu já conversei com o gerente e pedi o emprego. Expliquei que eu tinha que voltar pra Dublin pra buscar minhas coisas e organizar tudo mas que eu voltaria em duas semanas, e ele aceitou.

Bom, embarquei de volta pra Irlanda já com tudo planejado, ficaria mais duas semanas (o tempo de despachar parte da minha bagagem pro Brasil, conhecer alguns lugares que eu ainda não tinha visitado na Irlanda, e da minha host-mom achar outro estudante pra morar com ela) e voltaria pra Londres. Eu ia trabalhar ilegalmente mesmo, coisa que sempre tive medo de fazer, mas como seria só por dois ou três meses, não quis desperdiçar a chance e me dispus a correr o risco. Na chegada
em Dublin, estávamos parados no porto, e um oficial da imigração entrou no ônibus pra ver o passaporte de todo mundo. Mostrei o meu e falei a mesma coisa do visto, que o de estudante tinha vencido e eu queria o de turista. Ele ficou meio sem saber o que fazer e me pediu para acompanhá-lo até o escritório, para que eu falasse com o
responsável. O ônibus ficou me esperando e eu fui, entrei numa salinha dentro do prédio e o cara pegou meu passaporte e foi falar com o outro. Estava lá esperando tranquila quando entra o outro oficial, que devia ser o responsável, já bravo, meio agressivo comigo, perguntando por que eu estava voltando pra Irlanda, pedindo explicações porque a informação que ele tinha era que eu ia embora pro Brasil no dia 6 de junho (e acho que já era dia 7), perguntando se eu menti em relação a
isso. Daí eu me dei conta que o cara do aeroporto de quando cheguei de Paris tinha colocado no sistema a data da minha passagem pro Brasil, e eu não sabia que tinha essa informação lá. Eu expliquei que eu tinha remarcado a passagem pra agosto, que eu queria passear mais pela Irlanda e pela Europa, e disse que estava voltando porque minha base era Dublin, minha casa, minhas coisas estavam lá, e eu queria fazer turismo pelo país, que eu não conhecia quase nada. Ele tava super
bravo, falou que eu não podia fazer aquilo, não podia falar uma coisa e depois fazer outra, que se eu tinha falado que ia embora tal dia tinha que ser daquele jeito, e que eu já tinha tido muito tempo pra fazer turismo no país, etc etc. E eu completamente surpresa, não esperava uma reação dessas, ainda mais que na época que eu fui a
Irlanda ainda tinha essa coisa de ser mais tranquila em relação à entrada de estrangeiros, eu não conhecia muitos casos de gente que tinha tido problema com isso lá. Pedi desculpas, falei que não achava que teria problema em remarcar a passagem, tentei me explicar, tudo com calma. No fim das contas o cara falou que eu não poderia ficar, e me deu uma semana pra eu sair da Irlanda. Ficou com meu passaporte,
pegou meus dados e os da minha host-family (nome, endereço, telefone), disse que eu tinha que voltar lá durante a semana pra mostrar que já tinha passagem pra algum lugar e só assim ele me devolveria o passaporte e que se eu não aparecesse a minha host-family poderia ter problemas por minha causa. Enfim, fez o maior drama!
Eu sei que fiquei meio em estado de choque com a situação toda, demorei um tempinho pra assimilar tudo, e tentei correr com minhas coisas. A situação só não foi pior porque eu já tinha resolvido ir embora de qualquer forma, só que eu precisava de mais tempo. Vou falar uma coisa pra vocêss, finalizar as coisas, fechar de maneira tão abrupta um período de 7 meses da sua vida, não é fácil. Principalmente porque
foram 7 meses riquíssimos, absolutamente especiais. Não consegui encontrar com todas as pessoas pra me despedir, tive que despachar parte das minhas coisas pro Brasil pelo correio, foi caríssimo e eu ainda fiquei com mais um monte de mala, não consegui fazer quase nada do que pretendia. E com isso tudo eu fiquei com medo de chegar em Londres de avião, se eu já tinha tido problema na Irlanda, o que não
era comum, imagina em Londres, que a gente sempre ouve caso das pessoas sendo deportadas! Daí resolvi fazer um caminho que um amigo já tinha feito e que não costuma nem ter controle de imigração: dublin- belfast-edimburgo-londres. Fiz reserva nos albergues em Belfast e em Edimburgo, peguei minha passagem pro Brasil e todos os meus outros documentos, e fui lá buscar meu passaporte, com o mesmo cara que falou comigo. Pedi a ele que me desse mais alguns dias porque eu não estava
achando a melhor forma de despachar minhas malas (queria uma melhor alternativa que os correios), ele parecia mais calmo, perguntou quantas malas eu tinha e coisas do tipo. Eu falei que iria para o Reino Unido, que queria conhecer algumas cidades e que estava pensando em ir para a Espanha fazer um curso antes de voltar ao Brasil. Mostrei as reservas dos albergues, disse que não tinha passagem ainda porque
iria de Aircoach (para quem não sabe, uma empresa de ônibus) e compraria na hora, mostrei minha passagem pro Brasil e tudo o mais.
Ele leu absolutamente tudo, disse que ia ligar pra companhia aérea pra se certificar que aquele número de reserva era verdadeiro, fez mil perguntas, enfim, ele tava procurando qualquer sinalzinho de que eu poderia estar mentindo em alguma coisa. E eu não estava! Em certo momento eu disse a ele que não tinha razões para ficar na Irlanda, que minha vida era no Brasil, eu tinha tudo aqui, casa, família, amigos. E
ele disse que era justamente isso que ele estava querendo ver, se eu não tinha mesmo a intenção de ficar lá. Ou seja, o cara cismou que eu queria ficar lá ilegal, e não tinha nada que eu falasse que o fizesse mudar de idéia. Daí ele devolveu meu passaporte, e falou que não me daria mais tempo pra me organizar, e que ia ligar nos albergues em
Belfast e em Edimburgo pra saber se eu apareci por lá, e se não tivesse notícias minhas eu teria problemas.
Sendo assim, lá vou eu sair de Dublin em um ônibus rumo a Belfast às 11hs da noite de um sábado, carregando duas malas, uma daquelas grandes e outra pequena, uma mochila nas costas, e duas bolsas no ombro, tudo pesadíssimo, claro. E comecei minha peregrinação… Só sei que até chegar em Londres, 5 dias depois, eu passei por tudo: quase tive que dormir na rua, passei frio, recebi muita ajuda de estranhos,
fui acolhida em um hotel, embarquei e desembarquei carregando todas as minhas coisas em ônibus, trens, metrô, táxis, passei por momentos de desespero, cheguei a me perguntar o que diabos eu estava fazendo ali e se aquilo tudo valia a pena, pra no momento seguinte eu ver uma paisagem maravilhosa e já achar que valia, sim, a pena… Conheci brevemente algumas pessoas muito bacanas, e me surpreendi com a
solidariedade humana. Se não fosse a ajuda de algumas pessoas, mesmo pra coisas aparentemente simples do tipo me ajudar a tirar as malas do trem, eu não sei se teria conseguido! Mas cheguei em Londres, sã e salva, e no dia seguinte já comecei a trabalhar. A partir daí basicamente deu tudo certo, e eu passei um verão de muito trabalho, mas maravilhoso, e que mudou minha vida.

E essa é, em resumo, a minha história. Eu sei que não contei da vida em Dublin especificamente, mas achei mais bacana contar a experiência com a imigração e o que aconteceu depois. Mesmo porque já tem muita gente aqui contando do cotidiano, as escolas, a cidade, as pessoas, os pubs, essa coisa toda, e eu acho interessante contar um outro lado, algo bem diferente. Depois eu escrevo da minha vida lá também. Aliás,
eu tenho um site – caica.multiply.com – onde eu contei muita coisa da viagem toda. Podem acessar e deixar recados se quiserem (mas pra isso é preciso fazer cadastro no multiply). Podem comentar ou perguntar qualquer coisa por aqui também.

E só pra adiantar uma pergunta que vcs devem ter na cabeça já (e que muita gente me fez quando eu disse que queria voltar pra Irlanda esse ano): como eu posso voltar, eu não fui expulsa? Pois então. Eu estou um pouco apreensiva quanto a isso, mas como eu não passei por nenhum processo, não fui deportada nem nada, eu espero que isso não me cause mais problemas. Eu cheguei a perguntar ao cara da imigração se aquilo me impediria de voltar à Irlanda algum tempo depois, e ele disse que
não, que o importante era eu sair de lá naquele momento. Aliás, eu tive que voltar pra Irlanda depois pra pegar meu vôo pro Brasil, não tinha como mudar. Fui de Londres pra Dublin pela Ryanair, já queria chegar no aeroporto porque se eu tivesse algum problema era só ficar por ali mesmo que dali a algumas horas eu embarcaria pro Brasil. E foi tranquilo, o carinha mal olhou meu passaporte, eu disse que estava só
de passagem porque embarcaria no mesmo dia, e ele me deixou passar.

Agora eu não tenho garantia nenhuma de que vou entrar de novo, mas na verdade ninguém tem porque na hora que a gente chega se o oficial não quiser vc não entra no país. E eu estou olhando tudo direitinho, quero ir com tudo certo pra evitar qualquer problema e não dar motivo pra eles não me aceitarem. Desejem-me boa sorte!! :)
E a conclusão da Rô!

Meninos e meninas,

Disso é feita a vida”!
Vejam que as circunstancias e situações pelas quais nossa amiga “Cla” passou foram todas criadas por ela, por sua vontade de ver e viver.
Muitos sustos, com certeza, mas momentos plenos de vida!
Adoro isso! Viver é tudo!
Esse negócio de não fazer por achar que não vai dar certo, ou pior, por ter medo de não dar certo, não tá com nada.

O que temos que saber é:
1 as coisas “estão dificeis”, muitas vezes “são” dificeis e podem até piorar muitissimo, mas…(tem sempre o “mas”), a vida tem um final conhecido, que aliás todos sabem o nome: “morte”.
Deixar de existir, de repente, da noite pro dia. Esse é o final seguro e certo.

2 Pra quem tá com medo a grande noticia é que não é preciso se desfazer dele para estar na Irlanda: a imigração pode até pérceber que voce está com medo e encher o seu saquinho mas, definitivamente, medo não é item proibido na bagagem. Controle seu medo, não o deixe controlar voce. Sussa!

3 Pra quem tá com a cara e a coragem, pensando em vir: arrume o máximo de euros que puder e chegue aqui procurando um meio de ganhar dinheiro. Sei lá, até segurar placa na Grafton a 7 euros a hora pode rolar, de inicio, e já pagar seu lanchinho.

Pra quem ainda tá pensando se valerá a pena:

Sair da nossa zona de conforto, em qualquer circunstancia, é muuuuito chato. Mas nada pode ser mais chato do que uma vida “linear” e sem stress. Fora que, nesse caso, a gente nasce e cresce e vive “chato”.

Portanto, meus queridos, já que conhecemos o final de nossa “corrida” contra o tempo (morte), o que determina se seremos vencedores ou perdedores são as realizações, as experiencias vividas durante nosso trajeto.

A máxima maior é: “não roubar, não matar e, se possivel, não mentir nem roubar a mulher do próximo” O resto tá liberado.

beijusssssss
ro