2010
Mundo Afora (Mundo Adentro) – DNI ou DNA?
DNI ou DNA?
Irene é minha companheira de trabalho, do turno da tarde. Irene deve ter uns 20 e poucos anos. Irene nasceu e cresceu na Colômbia. Sua mãe é de lá. Mas morando aqui Irene é uma… sudaca. Esse é o termo pejorativo que os espanhóis utilizam para se referir aos indivíduos provenientes de suas ex-colônias do sul d’América. Em castelhano: Sudamérica. Daí sudaca.
São os sudacas que aqui normalmente limpam as privadas onde os outros defecam e os pratos onde todos cuspimos. Mas Irene é uma sudaca especial. Ela atende hóspedes internacionais na recepção de um albergue no centro da cidade, Barcelona. Atende hóspedes e faz check-ins. Faz check-ins and check-outs.
Irene é uma sudaca especial também porque seu pai é daqui, Barcelona, capital da Catalunha. O pai de Irene migrou para a ex-colônia Colômbia durante os anos de ditadura franquista, aliás, bem piores e mais longos que os nossos de ditadura “cirquista”…
Sendo assim, enfim, Irene é portadora de cidadania espanhola. Irene, portanto, está legalmente apta a viver, morar, circular e trabalhar em qualquer um dos 25 países que compõem este big-burg pós-contemporâneo. O muro caiu, mas outros, institucionais-burocrático-legais, foram levantados, altíssimos. A moeda? Uma só. Forte. Canhões foram substituídos por oficiais de alfândega mirándote feo. Welcome to… União Européia.
Unidos?
Ontem à noite, depois do trabalho, Irene caminhava pelas Ramblas com o namorado Bryan, americano do Texas. Bryan já leva algum tempo aqui. E ao contrário de Irene, Bryan não tem ascendência européia, apesar de ser branco, alto, loiro, olhos azuis, bem educado, culto, bem alimentado, bem vestido, enfim “bonitinho”… Bryan, portanto, não tem os mesmos direitos civis que Irene, de ir-e-vir. Bryan não tem cidadania européia. Teoricamente não poderia estar aqui, a não ser sob o status de visitante ou estudante, gastando livremente seus dólares, isso pode, mas com data marcada pra sair. Entretanto, Bryan mora aqui. Bryan mora aqui e tem trabalho.
Naquela noite, Bryan levava à mão uma lata de cerveja aberta. Irene não bebia. Caminhava apenas. Caminhavam em direção à casa de Bryan. Em algum momento um polícia se aproxima de Bryan e informa que ele não poderia estar bebendo álcool ali, em local público, ao ar livre, nas Ramblas ainda por cima, a maior vitrine da Espanha… Bryan apologizes. O polícia pede documentação, o que Bryan imediatamente informa “não tenho”, em inglês ou em castelhano carregado de texano. O polícia se dirige à Irene e igualmente lhe pede documentação. Irene lhe apresenta e, sob petição, lhe entrega seu DNI español. Documento Nacional De Identificación.
Quem não mora aqui não sabe, nem os europeus sabem, mas a Espanha só existe como Estado. Estado e reino. A Espanha não é uma nação, pois está formada por pessoas, povos, gente cujos sentimentos não apresentam a… “convicção de um querer viver coletivo” (wikipedia.com), isto é, separatistas. Os catalães são mais diplomáticos. Os bascos, terroristas. E os galegos vão na onda. Sendo assim, o poder central Madrid (também casa dos reis católicos, patrocinadores oficiais de grandes descobertas continentais e, atualmente, prestáveis inauguradores de museus quando a agenda do primeiro-ministro está cheia…), comete um erro sócio-político-terminológico explícito, embora sutil, ao batizar o documento real-estatal de… “nacional”. Que o Senhor esteja convosco.
Mas isso é assunto para outra discussão…
O polícia lhes pede que o acompanhem. E vão até a delegacia mais próxima. Lá, e durante todo o percurso, Irene fica sem a posse de seu DNI, o qual segue em mãos do agente. Ao chegar à delegacia, após argumentação infrutífera com a personificação armada do Estado real, isto é, o polícia, e sem entender o que se passava, Irene tensiona-se, exaltada: “Pero ¿qué pasa? Me puede decir ¿qué pasa? O que eu fiz! Poderia devolver meu DNI, por favor?” O polícia lhe diz à queima-roupa, straightfowardly: “A senhorita se crê espanhola apenas porque possui isto?”, indicando-lhe o cartão de papel plastificado, material do qual é feito o tal DNI. Irene é estrangeira pela boca, pelo sotaque da ex-colônia, colombiano-sudaca, indefectível. Não há DNI que disfarce.
Irene, agora criticamente tensa, arranca seu DNI da mão do polícia. No mesmo instante Bryan é levado para fora daquela sala. “Pra uma cela talvez?”, imaginei. Irene permanece ali, ela, aquele policial, e outros três mais rodeando-a.
Três mais?
Julgando o ato de Irene um desacato à autoridade, o polícia responde com um abuso de autoridade sub-bárbaro: pega Irene pelo cabelo, longos rastas, puxa-a em sua direção, e lhe dá um tapa na cara.
Irene imediatamente rebate dando-lhe outro.
Estava formado o episódio.
Todo o resto da história e sua conclusão eu não sei. Não consegui continuar prestando atenção… Irene nos contava hoje, chorando, inconsolada, e com medo de sair à rua… Exame de corpo de delito pra quê? Um tapa na cara não deixa marcas. E que provas? E Bryan?
Bryan não havia sido levado pra cela alguma. Apenas para uma sala de espera ao lado.
Sala de espera?
Irene, portanto, não possui testemunhas, a não ser os três outros policiais que a cerceavam.
Câmeras? Não. Nunca houve “grandes irmãos” em salas de tortura…
Bryan não viu nada do que se passou com Irene e nem sequer chegou a ser multado por infringir a nova “Lei de Ordenança Civil” do novo prefeito, que proíbe as pessoas de irem nuas na sua pelas ruas e de tomarem cerveja pelas Ramblas, e calles, e outros becos mais. Ao contrário de Gabrielito, um outro companheiro meu de trabalho, ajudante de limpeza, desses que limpam o chão por onde as pessoas pisam… Boliviano, traços inca, pele parda, cabelo grosso preto. Em 2007, Gabrielito foi pego pela polícia na mesmíssima Rambla. Dormiu aquela noite no xadrez e recebeu uma “carta-convite” para “retirar-se” do reino, ou Estado, mas definitivamente não-nação. Gabrielito, ao contrário de Irene, não tinha “papeles en regla”, isto é, documentação em dia. Todos os seus dias eram noites. Estava ilegal no país, assim como Bryan…
Parece-me, então, que “papeles en regla” ou passaportes capa cor vinho, letras douradas e emblemas do rei já não garantem mais o acesso. Mais importante que o DNI ficou o DNA. Portar uma cara “limpa”. Está acima da lei. É isso?
Lei?
Sendo assim, estou trocando meu passaporte europeu por uma lata de cerveja. Aberta… Inglês eu já falo. Posso até forçar um acento texano. Ou californiano. Melhor: nova yorkino…
Bonitinho eu já sou…………………….
Adriano Barchese
Barcelona, janeiro 2010


















