Acordo da Sexta-feira Santa celebra 22 anos

Acordo da Sexta-feira Santa celebra 22 anos

Rubinho Vitti

2 meses atrás

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Um importante laço de paz foi construído há 22 anos entre a Irlanda e Irlanda do Norte, após décadas de disputas, atentados e guerras. O Acordo de Belfast, mais conhecido por Acordo da Sexta-feira Santa, justamente porque foi assinado na sexta-feira de 1998, promoveu uma trégua entre os governos britânico e irlandês e os partidos políticos da ilha. Em plena validade, ele garante direitos e deveres das duas Irlandas em relação a diversos patamares sociais e políticos.

Quais os motivos da violência na Irlanda do Norte?

Um dos muitos murais em Belfast que ressaltam o passado de guerra entre Irlanda e Irlanda do Norte. Foto: Photo by PAUL FAITH/AFP/Getty Images

Os conflitos começaram há 100 anos, nos anos 1920, década em que a Irlanda do Norte se tornou um local com sistema político próprio. Quando isso aconteceu, a população da Irlanda do Norte foi dividida em duas: os sindicalistas ou legalistas, que defendem a permanência do país no Reino Unido, e os nacionalistas (ou republicanos), que queriam que a Irlanda do Norte fosse independente e se unisse à República da Irlanda. Os primeiros, majoritariamente protestantes, e os segundos, católicos.

A tensão entre os dois lados se tornou violenta a partir dos anos 1960, seguindo até os anos 1990, com muitos combates entre grupos armados de ambos os lados e muitas pessoas morreram.

Leia também: Quem vive na Irlanda do Norte é irlandês ou britânico?

As tropas britânicas entraram em conflito com grupos armados republicanos, um deles conhecido como IRA — Exército Republicano Irlandês, que realizava atentados violentos na Grã Bretanha. Do outro lado, os legalistas atacavam com em grupos como a Ulster Defense Association (UDA) e a Ulster Volunteer Force (UVF). Ambos os lados foram responsáveis ​​por muitos assassinatos.

Um dos episódios mais conhecidos da violência entre republicanos e legalistas foi 1972, quando 14 pessoas foram mortas por tropas britânicas durante uma marcha pacífica pelos direitos civis liderada por católicos e republicanos em Londonderry. Esse dia foi conhecido como Domingo Sangrento e inspirou a canção Sunday Bloody Sunday, da banda irlandesa U2.

Como surgiu o acordo?

Os embates continuaram até os anos 1990, quando o IRA anunciou uma trégua. Nesse período, sindicalistas e nacionalistas começaram a discutir como resolver os problemas na Irlanda do Norte. Após décadas de conflitos e dois anos de extensa negociação, o acordo da Sexta-feira Santa foi assinado em 1998.

Principal mudança do Acordo da Sexta-feira Santa

Belfast, capital da Irlanda do Norte, onde o Acordo da Sexta-feira Santa foi assinado. Foto: K. Mitch Hodge/Unsplash

Quando a Irlanda do Norte se separou, seu governo era principalmente sindicalista. O acordo da Sexta-feira Santa foi justamente a ideia de estabelecer um governo novo e descentralizado para a Irlanda do Norte, no qual sindicalistas e nacionalistas dividissem o poder.

O Acordo também constituiu que só a população poderia decidir se a Irlanda do Norte seguiria parte do Reino Unido ou se juntaria à República. Por isso, foi acordado que não haveria mudança sem o consentimento da maioria. Isso é chamado de “princípio do consentimento”. Assim, a mudança poderá, no futuro, apenas ser decidida por meio de referendo. Leia o acordo na íntegra.

Prêmio Nobel da Paz

Os partidos UPP (Partido Sindicalista Ulster), liderado por David Trimble, e o Partido Social Democrata e Trabalhista (SDLP), liderado por John Hume, foram os principais na luta pela paz na Irlanda. A importância deles para o Acordo da Sexta-feira Santa é tanta que seus líderes ganharam juntos o Prêmio Nobel da Paz de 1998.

O Acordo nos dias atuais

O primeiro-ministro Leo Varadkar ressaltou que, segundo o Acordo da Sexta-feira Santa, ‘Irlanda do Norte é parte do Reino Unido até que as pessoas decidam o contrário’. Foto: Merrion Street

O Acordo da Sexta-feira Santa voltou forte entre os assuntos mais comentados na Irlanda depois da saída do Reino Unido da União Europeia. Afinal, a divisão entre a República da Irlanda, que permanece na UE, e a Irlanda do Norte, que agora não faz mais parte do bloco, gerou muitas dúvidas e discussões no meio político. A principal delas era se o Acordo seria abalado com o Brexit.

O fechamento da fronteira entre os dois países foi a ideia mais criticada, assim como taxação de exportação e importação. Aliás, esses pontos ainda são discutidos, e o futuro segue incerto.

O primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar chegou a afirmar ao primeiro ministro britânico, Boris Johnson, ser muito explícito que o governo do Reino Unido deve ser rigorosamente imparcial na forma como administra a Irlanda do Norte, “e todos nós precisamos respeitar o fato de que as aspirações sobre o povo unionista e nacionalista são iguais”, ressaltando as pessoas que gostariam de unir as Irlandas (unionistas) e os contrários (nacionalistas).

Leia também: Brexit poderia unir Irlanda e Irlanda do Norte?

Varadkar disse, na época, acreditar que o Acordo da Sexta-feira Santa é uma “obra-prima”. “É explícito sobre o princípio do consentimento, que a Irlanda do Norte é parte do Reino Unido até que as pessoas decidam o contrário”.

Futuro das Irlandas

Outro momento em que o Acordo veio à tona foi durante as eleições legislativas da Irlanda. O partido Sinn Féin, do qual o IRA era braço armado durante o período de conflitos, foi vitorioso, elegendo um número recorde de deputados. O partido é a favor da união entre as Irlandas, e sua liderança já afirmou que espera ter um referendo a médio prazo para definir a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido.

Uma nova pesquisa realizada pelo jornal britânico The Times mostrou que a maioria dos irlandeses querem que a República da Irlanda e a Irlanda do Norte se unam a curto, médio ou longo prazo. Mesmo assim, o futuro ainda é nebuloso, e a torcida é para que a paz continue imperando sobre toda a ilha.

Rubinho Vitti
Rubinho Vitti, Jornalista de Piracicaba, SP, vive em Dublin desde outubro de 2017. Foi editor e repórter nas áreas de cultura e entretenimento. Também é músico, canceriano e apaixonado por arte e cultura pop.

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