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Crônicas da Ilha

Big Brother Irlanda

Leandro Mota postou em 05 dez 2014

foto_big brother irlanda - creditos - divulgacao TV Globo

Foto Reprodução: Rede Globo

A tensão é grande na sala. Todos a minha volta querem segurar a minha mão, me abraçar. As malas estão prontas, fechadas, próximas à porta. O silêncio impera no ambiente. Parece um velório. De repente, a televisão liga sozinha. Na tela, Pedro Bial aparece e anuncia:

– Leandro, você é o eliminado do dia. Venha ser feliz aqui fora!

Choro. As lágrimas me confundem. Parte delas é de tristeza por deixar meus amigos. O restante é de alegria por rever meus familiares. Abraço um por um. O brasileiro do quarto ao lado é o primeiro. São pelo menos três minutos de promessas de amizade eterna. A francesa que presenciou grande parte de minha jornada nesta nave louca também não se contém. Jura que irá me visitar o quanto antes. O mesmo acontece com todos os outros presentes na sala. Pego as malas, visto a mochila e dou a última olhada para aquela sala. A porta se fecha. É nessa hora que o projetista dá o play e um filme vem à sua cabeça. Sem perceber, minha mente me leva para meses atrás, exatamente no dia em eu entrava para o Big Brother Irlanda.

– Sláinte!

Cinco pints se encontravam para brindar a primeira Guinness em território irlandês. Era o início de uma nova fase para aqueles que dividiam a mesa do bar. Todos deixaram para trás amigos, familiares e até carreiras para se aventurar em um outro país. Fizeram uma aposta. Queriam ganhar.

Novas amizades surgiram logo na primeira semana. O mais legal desse momento é que ninguém, absolutamente ninguém se conhecia antes. Não faltava assunto. Perdi as contas de quantas madrugadas varamos conversando sobre a vida. Nesse emaranhado de histórias, você acaba encontrando pessoas distantes de sua realidade – como um ex-militar coreano que já havia tentado suicídio – e, ironicamente, tão próximas que pareciam estar ali do seu lado o tempo todo e você nunca reparou. Uma delas era amigo de um grande amigo, tinha a mesma profissão que a minha e morava a duas quadras do meu apartamento em São Paulo. Pena que ele foi eliminado três meses depois.

Ainda lembro da primeira prova de resistência. Durou três meses. Sem emprego, economizava até arroz. Aquecedor no quarto só por uma hora. Banho de no máximo cinco minutos. Ia para o Lidl de mochila para não precisar comprar sacola. Bebia vodka do Tesco em casa para não precisar de mais nada na balada. Levava cinco euros em moeda para a Dicey’s e aproveitava cada gole das minhas duas pints. Voltava andando da escola para evitar usar meu Leapcard no busão. Ah, que fase! O Boninho realmente pegou pesado com a galera lá de casa.

Mas nada como um dia após o outro. Depois de tanto perrengue, eis que consegui um emprego e virei líder da casa. Assumi o quarto single, com direito à cinema às sextas-feiras. Comprei até roupão branco e vestia TODA VEZ que tomava banho. Lembro da minha primeira balada ostentação. Compramos um uísque irlandês pro esquenta em casa. No pub, comecei com um irish coffee. Depois partimos para a vodka com energético. No fim, algumas pints para não pesar o fígado. O salário de kitchen porter garantiu minha imunidade. Criei raízes naquela casa, e todo mundo percebeu. Eu era observado 24 horas por dia pela minha mãe, pai, irmã e por todo mundo que ficara no Brasil. Coisas de Facebook.

O problema é que os amigos mais próximos começaram a abandonar o barco. Mês após mês, todos eram indicados ao paredão e acabavam eliminados. Certa vez, fui convidado para três farewell parties em uma semana. Aquela empolgação do início passou a dividir espaço com lágrimas de adeus. E a saudade daqueles que voltaram e daqueles que nem vieram começou a apertar. E a incomodar.

Você sabe que está preparado para ir embora quando a ansiedade por estar lá fora fala mais alto do que a alegria de estar aqui dentro. Foi então que eu me voluntariei para ir ao paredão. No começo, quando a decisão é tomada, parece que tudo está sob controle. É aquela sensação de “deu o que tinha que dar”. Os defeitos de Dublin, que você jamais dera importância, passa a te aborrecer. O frio, que outrora era motivo de infinitos posts de humor no Facebook, começa a te irritar. A chuva, então, nem se fala. O sotaque dos irlandeses deixa de ser engraçado. Até sugeri a um deles que frequentasse a mesma escola que eu estudara. Os nanás, que antes passavam despercebidos, agora parecem te perseguir. Nas palavras de um amigo, são todos figurantes de “The Walking Dead”. O emprego, que era perfeito, torna-se um martírio diário. Até que um dia você entra no confessionário, olha para a câmera e implora: “me eliminem, por favor”.

Incrivelmente, toda essa sensação muda na semana do paredão. É como se você tivesse tomado uma overdose de nostalgia. Última compra na Penneys, última baguete de frango no Centra, última pint no Temple Bar, último porre na Dicey’s, última passada no Lidl, último passeio no Stephen’s Green, último sorvete no Gino’s, último tudo. Agora você tem certeza absoluta que sentirá saudades do frio, da chuva, do sotaque irlandês, do seu emprego e até dos nanás. Então, uma pergunta surge em sua mente: será que eu quero ir embora mesmo?

Agora é tarde, mané! Hoje é dia de paredão. Arrume a mala e vai para sala esperar o Bial.

– Leandro, o jogo acabou para você!

Sim, acabou. Hora de voltar para a realidade.

Obs. Aguardo convite para posar no Paparazzo e fazer presença VIP em festas de subcelebridades. Estou até pensando em virar DJ! Obrigado, Brasiiiiiiil (grito histérico)!!!!

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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