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Papo de Chef

Como é trabalhar em uma cozinha Irlandesa?

Lays Gomes postou em 02 abr 2018

O governo irlandês está em busca de cerca de oito mil cozinheiros profissionais para suprir a carência do setor.  E a boa notícia é que, não europeus poderão entrar no mercado de trabalho gastronômico com direito a visto de trabalho.

Lays Gomes, a nossa chef internacional que desembarca aqui no E-Dublin com a coluna Papo de Chef para contar como é trabalhar como cozinheira na Irlanda.

Então, se você tem interesse pela área, pensa em investir na doma irlandesa, tem perguntas, dúvidas ou quer compartilhar algo sobre o tema, sinta-se livre para deixar comentários ou entrar em contato direto com a Lays, que hoje nos conta um pouco mais sobre como é atuar profissionalmente na cozinha irlandesa.

Bem-vinda Lays! :)

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Nossa mais nova colunista Lays Gomes. Arquivo Pessoal

Existem pessoas em várias partes do mundo que sonham em trabalhar em um ambiente internacional e curiosos que querem saber qual o processo realizado para, muitas vezes, chegar ao mesmo resultado. Isso não é diferente quando o assunto é cozinha.

Eu sou brasileira, 22 anos, formada em gastronomia, já trabalhei em restaurantes no Brasil e hoje estou trabalhando em uma cozinha irlandesa. Posso dizer que as diferenças são enormes – desde a estrutura física da cozinha até as finalizações dos pratos.

Limpeza, preparo e tempero

Logo no meu primeiro dia de trabalho já comecei a reparar nos detalhes – a cozinha não tem ralo! Para onde será que vai toda a água que jogamos quando encerramos o serviço e lavamos a cozinha das paredes ao chão? Pois é, não vai a lugar nenhum, simplesmente porque não se joga água nas cozinha daqui – e nem nas casas, apenas passamos o mop e pronto!

Reparando o chef cozinhar, já observei outras diferenças como, por exemplo, o modo como ele prepara o arroz. Para começar, aqui eles não têm a presença marcante do alho nos pratos, como temos no Brasil, então o arroz é o grão e a água, um pouco de sal, e quando atinge o ponto exato de cocção, é só virar no escorredor. Por isso muitas pessoas falam que sentem saudades da comida de seu país.

Se você não sabe cozinhar, com certeza irá sofrer com isso. No meu caso, muitas vezes consigo os ingredientes necessários, faço os pratos que me dão vontade e pronto. A variedade de ingredientes nos supermercados é bem grande. Obviamente não existe exatamente tudo que temos no mercado brasileiro, mas é possível encontrar muitos legumes e frutas, por exemplo, e são sempre de ótima qualidade.

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Cuidado com os temperos. Crédito: Shutterstock

Carga horária de trabalho também é intensa

Nas cozinhas brasileiras em que trabalhei, assim como nas da Irlanda, as cargas horárias são pesadas e muitas vezes longas, então esteja preparado para isso em qualquer lugar do mundo. As pessoas no local de trabalho muitas vezes acabam convivendo mais com a gente do que nossos amigos ou familiares.

O que acontece aqui é o seguinte: quando chega a temporada de verão, as cargas horárias multiplicam, surgindo, também, muitas oportunidades de emprego nesta época do ano. É preciso estar preparado para trabalhar dez… doze horas por dia, caso o local em que você estiver trabalhando precise. Meu recorde aqui foram 15 horas, em um sábado, durante a famosa corrida de cavalos que acontece em Galway no meio do mês de julho. No inverno, o movimento cai – consequentemente, a carga horária também diminui mais.

Sem um salário fixo semanal ou mensal, você ganha pela quantidade de horas trabalhadas – pelo menos comigo é assim. Se eu trabalho 20 horas na semana, receberei o referente a isso, e assim por diante. Porém, sei de alguns lugares em que não aceitam que os funcionários excedam o horário estipulado.

No Brasil, as cargas horárias dentro da cozinha também chegam a bater a casas de dez, doze… quinze horas por dia. Mas, como a forma de pagamento não é feita por hora, geralmente acumulam-se as horas extras e tudo é abatido no final do mês de acordo com o empregador.

Estrutura da Equipe

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Na Irlanda, as equipes podem ser mais enxutas. Crédito: Shutterstock

Na cozinha em que eu trabalho, somos apenas eu e o Head Chef. Parece loucura? E é mesmo!

O head chef fica responsável por toda a elaboração do cardápio, faz os pedidos com os fornecedores e executa os pratos de segunda à sábado. Eu o auxilio durante a semana, além de cuidar de toda a parte da louça e organização da cozinha. Aos finais de semana, eu sou responsável por fazer o “finger food”, que seriam os “aperitivos” no Brasil, e também assumo a cozinha a partir das 15h, que é quando o head chef vai embora. Aos domingos, sou eu quem fico à frente de tudo e tenho outra pessoa para me auxiliar e cuidar da parte da limpeza.

No Brasil, em todas as cozinhas em que trabalhei sempre tínhamos, no mínimo, cinco pessoas, pois geralmente a demanda era enorme. Minhas maiores experiências foram em restaurantes industriais, chegando a fornecer refeição para 300 a 1000 pessoas. As funções geralmente eram um pouco mais específicas quando se tratava de manipulação de alimentos, mas na hora da limpeza todos se juntavam.

Possibilidade de ascensão profissional

Levando sempre em consideração que todas essas informações são baseadas em minha experiência própria, outro fator muito relevante é a questão da ascensão profissional. Assim como já mencionei acima, no Brasil encontrei um pouco de resistência, principalmente vindo de pessoas mais velhas, e isto é totalmente compreensível, pois a universo gastronômico no Brasil tem se desenvolvido muito, fazendo com que cada vez mais jovens queiram explorar este universo. Isso pode assustar outras pessoas que já estão exercendo essas posições há anos ou décadas.

Minha impressão foi de que seria um pouco mais longo o caminho a ser percorrido para que eu chegasse até onde eu gostaria, caso continuasse lá. Foi por este motivo que resolvi me mudar e testar um ambiente diferente. Estou na Irlanda há oito meses e desde o meu primeiro mês aqui trabalho no mesmo restaurante. Com sete meses de empresa, sei que o meu desenvolvimento foi rápido e não vai parar tão cedo – ou talvez nunca, pois acredito que estamos sempre nos desenvolvendo.

Vale ressaltar que nada vem de graça. É preciso muito foco e muita determinação, ainda mais quando se está no meio de um intercâmbio e provavelmente sua mente está a mais de mil por hora todos os dias durante todo o período que você estiver aqui, sentindo todas as emoções possíveis, se questionando a cada dia se tudo isso foi a escolha certa, sempre ansioso para saber como o dia de amanhã vai terminar e também tendo que lidar com a sede de “quero mais”. É preciso traçar uma linha com alguns pontos a serem alcançados, como se estes pontos fossem os seus “check points”. À medida que você for alcançando estas marcas, você estará alcançando também essa ascensão, talvez de uma forma até mesmo mais natural.

Como mencionei, no Brasil, a grande maioria dos meus ex-colegas de trabalho eram sempre muito competitivos e não queriam abrir espaço para pessoas mais novas, simplesmente por medo de uma pessoa jovem mostrar mais capacidade e acabar ficando em seu lugar. Aqui na Irlanda aconteceu exatamente o contrário. Logo nas minhas primeiras semanas, o chef já foi explorando minhas habilidades e me atribuindo cada vez mais funções e responsabilidades, me testando cada dia mais para ver até onde poderia chegar – e assim está sendo até hoje.

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Crédito: Shutterstock

No Brasil, cozinhava para centenas de pessoas todos os dias da semana, com mais uma cozinheira e três auxiliares, e o serviço parecia nunca ter fim. As pessoas nunca pareciam satisfeitas, a pressão era de todos os lados e quando me dei conta não estava cozinhando com o mesmo amor, estava ligada no automático e totalmente sem motivação. Esse foi o estopim para querer mudar tudo.

O ambiente em que trabalho agora é bem mais tranquilo, mais leve e faz com que me sinta bem. Estou em busca de mais aprendizado. Não estou apenas querendo mostrar o que sei, mas sim aprimorar as habilidades que já carrego e colher muitas outras. Também busco agregar um pouco na vida das pessoas que passam por mim e sonham em fazer exatamente o que vim fazer na Ilha Esmeralda: intercambiar conhecimentos, ideias, sonhos e conhecer outras gastronomias.

“Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia de tua vida”, Confúcio.

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Para saber mais sobre as aventuras culinárias da Lays basta segui-la no Facebook e YouTube.

Revisado por Tarcísio Junior
Imagens via Shutterstock
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Sobre o Autor


Nossa colunista gastronômica é uma mineira de 22 anos que sempre soube como correr atrás de seus objetivos. Apaixonada por viagem e gastronomia, ela tem muita energia e determinação para chegar onde quer. Cozinhar para os outros sempre foi uma inspiração e uma forma de demonstrar amor. Formada em Gastronomia, ela busca aprimorar suas habilidades e enriquecer seu conhecimento em cada canto do mundo que conseguir visitar.

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