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Trabalho

Como passei de Kitchen Porter a Chef

Elizabeth Gonçalves postou em 15 jan 2017

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Como nós já abordamos por aqui que o trabalho de Kitchen Porter é bem comum entre os intercambistas da Ilha da Esmeralda, sendo, muitas vezes, a porta de entrada desses estudantes no mercado de trabalho irlandês.

Mas, e quando é possível dar um passo adiante e se tornar um Chef?

Isso aconteceu com o gaúcho Alexandre Marques, que mora há três anos em Dublin e atualmente trabalha como Chef de Cozinha. Ele conta nessa entrevista como isso aconteceu. Confira:

Como surgiu a oportunidade de trabalhar como Kitchen Porter em Dublin?

Eu trabalhava entregando jornais na parte da manhã e vendia jornais à tarde. Um amigo resolveu me tirar das ruas e me indicou para trabalhar no restaurante onde ele trabalhava.

Essa foi a sua primeira experiência de trabalho na cozinha?

Sim, foi minha primeira experiência como Kitchen Porter. Eu lembro que estava bastante nervoso, pois não falava inglês muito bem e não conhecia o vocabulário utilizdo na cozinha. Além disso, era um restaurante muito conhecido em Dublin naquela época por causa do Chef, Lorcan Cribbin, foi ele quem cozinhou para a Rainha quando ela visitou Dublin no início de 2011 e se negou a cozinhar para a Madonna.

Como foi essa experiência?

No início foi muito difícil, eu achava que seria demitido nas primeiras semanas, mas aprendi rápido. Os Chefs e o outro Kitchen Porter, que por acaso era o meu amigo, me ajudaram muito. Era extremamente cansativo e o movimento na cozinha era demais, mas aprendi muitas coisas lá, entre elas, a falar inglês!

Por quanto tempo você trabalhou como Kitchen Porter?

Trabalhei em torno de 7 meses. Sendo 3 meses nesse restaurante que mencionei acima e depois 4 meses em outro.

E o que você aprendeu com os Chefs?

No primeiro restaurante eu tive uma boa visão de como funciona a dinâmica da cozinha, mas não me recordo de ter aprendido nada relacionado a cozinhar. Quando comecei a trabalhar em um outro restaurante, mais uma vez um lugar muito bem conceituado e muito conhecido em Dublin, eu já sabia como a cozinha funcionava e desta vez eu falava inglês. Então, sim, eu tive a oportunidade de aprender com os Chefs na minha segunda oportunidade como Kitchen Porter.

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Quando você começou a preparar refeições?

Eu saí do primeiro restaurante para trabalhar em um café por causa do horário de trabalho, que era mais leve. No café era bem mais tranquilo. A cozinha era muito mais fácil de tomar conta, afinal, eles não tinham nenhuma panela pesada e tinham bem menos louças para limpar. Facilitava também que no café, ao contrário do restaurante, eles só montavam sanduíches, não havia um grande preparo antes de abrir para o público, só tínhamos que cortar os vegetais e misturar alguns molhos e condimentos e pronto. Trabalhei neste café por um ano.

Por que você voltou a ser Kitchen Porter?

No final minhas horas de trabalho haviam diminuído e me vi obrigado a procurar outro emprego, foi aí que comecei a trabalhar no segundo restaurante. Depois de uns 2 meses trabalhando neste lugar eles precisaram de um Starter Chef e eu me ofereci para montar os pratos de entrada. Eles acharam estranho, mas acabaram por concordar.

Em alguns dias comecei a fazer também o preparo da comida, foi aí que comecei a me interessar pela profissão e vi que talvez eu levasse jeito pra isso. Dividia meus dias da semana como Starter Chef e como Kitchen Porter. Trabalhei assim por pouco mais de um mês, até eles contratarem um Chef qualificado. Um mês depois eu saí do restaurante para passar dois meses no Brasil, pois havia mais de dois anos não via minha família. Assim, desisti do emprego.

Como foi essa transição de trabalho, ou seja, de Kitchen Porter para Chef?

Quando voltei do Brasil resolvi procurar um emprego na área, mas como não sou um Chef qualificado, só sei o que aprendi na prática, não teria cacife para procurar um emprego em um restaurante movimentado. Então resolvi tentar a sorte e entreguei um currículo em uma guest house, o que no Brasil é equivalente a uma pousada, para a posição de Breakfast Chef – preparar o café da manhã para os hóspedes.

Como foi a entrevista de emprego e o teste?

Falei para o gerente que eu tinha experiência como Chef, o que era uma grande mentira. Ele me mostrou o menu e perguntou se eu sabia preparar os pratos que eles ofereciam. Olhei pra ele, respirei fundo, aparentei calma e respondi confiante: Sim! Meu teste estava marcado para o dia seguinte, às 7 horas da manhã.

Durante o teste me concentrei e prestei muita atenção em tudo o que me era ensinado. A pousada estava bastante movimentada. E lá, ao contrário da maioria dos hostels e hotéis onde já me hospedei, o café da manhã era servido à la carte, o que lembra um pouco a cozinha de um restaurante. Ao final do expediente o gerente me perguntou se eu gostaria de voltar na manhã seguinte para um novo teste, mas desta vez sozinho na cozinha. Respondi que sim e voltei na manhã seguinte. Nesse dia trabalhei em frente à nossa chefe, a dona da pousada. Quando terminei de preparar a comida para o dia seguinte e limpar a cozinha o gerente me chamou. Ele disse que a “patroa” havia gostado do meu trabalho e que era pra eu voltar no dia seguinte. Eu estava contratado. Ou seja, minha primeira tentativa na área e deu certo!

Como é a sua rotina como Chef?

Minha rotina é bem simples, mas mesmo assim um pouco cansativa: trabalho seis dias por semana. Inicio às 7h da manhã e começo a receber as comandas das mesas às 07h30. Neste intervalo tenho que preparar a salada de frutas, dois tipos de panquecas e porridge, uma espécie de mingau de aveia tradicional da Irlanda. Diariamente sirvo, em média, 35 – 40 pessoas, sendo que o café da manhã consiste em entrada e prato principal. Encerramos o serviço às 09:30 e começo a preparar o café da manhã para o staff e, logo em seguida, preparo algumas coisas para o dia seguinte. Entre as 11h e 12h a cozinha está limpa.

Trabalho entre quatro e cinco horas por dia, o que me permite ter praticamente o dia inteiro livre. Apesar de poucas horas de trabalho, elas são muito intensas, pois a cozinha não para nunca e sou o único Chef para preparar tudo, além de acordar todos os dias às 6h da manhã.

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Qual é a melhor e a pior parte de ser um Chef?

Acho que a melhor parte em ser um Chef é ver a satisfação de quem está comendo aquilo que você cozinhou. Se o cliente está feliz com a comida, o trabalho foi bem feito, ou seja, o Chef está feliz. Gosto também de ver a transformação da comida, ela não tinha o mesmo cheiro e o mesmo sabor antes de você cozinhar, era diferente e você a transformou em algo delicioso, algo que as outras pessoas vão gostar. Isso acho fascinante!

Mas quando alguém não gosta do que eu cozinho, a decepção é terrível! O sentimento de que você falhou é horrível. Por isso sempre que vou cozinhar pra alguém, seja no trabalho ou para amigos, tento colocar carinho no que estou fazendo. Cozinhar para os outros é você se doar um pouco. Você quer que aquilo fique bom e que todos tenham prazer em comer, e quando isso ocorre você sabe que fez direito. E isso não tem preço.

A pior parte em ser um Chef, caso você trabalhe em um restaurante, é que sua vida social é esquecida. Você nunca tem tempo pra fazer nada. Você não tem finais de semana nem feriados.

Sobre o Autor


Elizabeth Gonçalves é jornalista viciada em cinema, música e literatura. Paulistana, se apaixonou por Dublin, onde mora há mais de um ano e sonha em fazer uma viagem de volta ao mundo.

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