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Crônicas da Ilha

Dublin emagrece e ENGORDA

Leandro Mota postou em 10 jan 2017

Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

Cheguei gordo em Dublin. Três meses depois, fui surpreendido com comentários em uma foto publicada no Facebook.

– Nossa, como você está magro!

Meus amigos me perguntaram se eu estava doente. Minha mãe sugeriu me enviar receitas para me “alimentar melhor”. Minha irmã quis saber o segredo da dieta. Meu primo me chamou de lacraia. Um colega obeso veio dizer que estava aceitando doações de roupas XXL. Meu pai… Bom, meu pai não reparou.

De fato, eu havia emagrecido. Quanto? Não sei. Como? Não tenho a menor ideia. Meus flatmates tinham o “péssimo” hábito de gostar de cozinhar. Uma noite, panquecas de carne moída com requeijão fake da loja árabe. Na outra, era vez do tutu de feijão com calabresa polonesa. O cardápio do dia seguinte trazia risoto de camarãozinho (menor do que uma ervilha). O ápice veio com a sensacional lasanha de quatro queijos (na verdade eram apenas três, mas tá valendo). Diante de tal fartura, como eu posso ter perdido tanto peso?

Minha tese: o deus de Dublin gosta de brincar com o corpo das pessoas! Simples. Sabe menininha que fica trocando a roupa da Barbie toda hora? É mais ou menos assim. Só que em vez de bonecas e roupinhas, o deus de Dublin se diverte com pessoas e tecidos adiposos.

A brasileira que morava comigo também foi vítima do homem lá de cima. Ela não saía de casa para nada. Absolutamente NADA. Passava o dia no quarto comendo. E o que aconteceu? Ela ficou duas vezes menor. Incrível!

A colega de sala de aula trabalhava no Mc Donald’s. Chegava todo dia na escola com um saquinho bege com um M amarelo desenhado. Era batata-frita no café, no almoço e na janta. Três meses depois, ela já vestia blusinha P.

Assim foi com pelo menos umas dez pessoas do meu círculo de amizades. Noventa dias de Irlanda e… todos magros! Sem nenhuma explicação.

Até que um dia o humor do deus de Dublin mudou…

(pausa para música de suspense)

CABRRRRUUUMMMM (isso é um trovão, ok?)

…..

Hoje estou gordo de novo! Eu e todos eles. Até acho que estou comendo menos, mas nada é páreo diante do mau humor do todo poderoso. Aquela calça 38 comprada há um ano já não passa nem na coxa. Até a jaqueta de frio está levemente apertada. As camisetas tamanho M viraram pijama para a namorada. Namorada? Vocês devem estar achando que a culpa é do relacionamento sério, mas não é! Garanto (ou não)!

Nesta fase, é curioso que ninguém mais fala sobre o seu peso nos comentários do Facebook. As frases como “nossa, como você está magro” e “caramba, você sumiu” viraram “que lugar bonito” e “volta logo, estamos com saudades”. Até arrisquei postar uma selfie mostrando como o meu rosto estava parecendo uma lua, mas o máximo que consegui foi um comentário sobre os novos óculos escuros.

O processo de expansão do meu diâmetro começou quando mudei de emprego. Deixei o posto de “bar staff”, cuja principal obrigação era carregar trocentos barris de cervejas por dia, para assumir o papel de kitchen porter em um café.

(pausa para contar um segredo bem baixinho)

….. é assim que o homem lá de cima adiciona tecido adiposo em nossos corpos …..

(voltamos ao texto original)

O chef me pedia para ajudá-lo. E uma das funções era fazer um lanche chamado BLT. Vocês sabem o que é isso? BLT é a sigla dos principais ingredientes do sanduíche. T de tomato (tomate em inglês, mãe!), L de lettuce (alface, pai!), e B de BACON! BAAAACON!!! BE-I-CÃO!!! Era uma fatia no pão e outra na boca. Colocar um gordo para trabalhar em cozinha é pior do que soltar um vira-lata num açougue. Nos dois casos, o dono tem prejuízo.

Mas como o efeito sanfona aconteceu exatamente com TODO mundo que emagreceu pra caramba nos primeiros três meses, fico com a consciência tranquila de afirmar: a culpa não é minha (ou é)!

Aos que estão planejando desembarcar por aqui nos próximos meses, um aviso: o deus de Dublin é cruel. Fuja antes que ele te eleja seu brinquedo favorito (ou não comam “fish and chips”, nem no Eddie Rocket’s, evitem Mc Donald’s, esqueçam o tal de “irish breakfast” e, o principal, não trabalhem em cozinha).

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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