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Crônicas

Flores ao Vento

Colaborador E-Dublin postou em 08 jul 2017

O sol brilhava naquele fim de tarde como raras vezes vi em Galway. Sentei-me perto da janela, de frente para a Eyre Square. Resolvi tomar minha dose de vitamina D – a vitamina de Deus!

Ao lado, há uma estação de trem. Observo o vai e vem das pessoas, surfando pelas ruas naquelas ondas de vento frio. As expressões sérias de quem se protege o quanto pode. Uma velhinha de cabelos bem brancos espera a luz verde esmeralda do semáforo permitir sua travessia.

Em dias de sol, sem vento, a Eyre Square fica florida de gente. Todos em busca de calor e de luz. A praça hoje está vazia.

A velhinha carrega uma sacola de papel. Já carreguei várias do mesmo tipo desde que cheguei aqui. Ambas levamos muito na bagagem – ela talvez mais carregada de passado, o qual, espero, tenha sido bom. Espero que tenha plantado as melhores sementes para o jardim do fim dos dias.

As minhas ainda estão preenchidas de sonhos, lembranças, sorrisos e estrelas.

Continuo observando…

O sol brilhava forte em Galway. Crônicas da Ilha. Crédito: Avany França

O sol brilhava forte em Galway… Crônicas da Ilha. Crédito: Avany França

Um ônibus para e dá passagem aos pedestres queimados pelo vento, somente alguns segundos antes do verde autorizar a passagem. Todos atravessam, menos a velhinha, que só coloca os pés na faixa após se certificar de que está em segurança.

Atravessa, defendendo-se do vento cortante. Acompanho seus passos lentos e meio mancos, embora ligeiros para sua idade. Na janela, as flores amarelas dançam ao ritmo do vento. São, para mim, a maior representação da resistência. A velhinha segue em direção à estação. Se ela foi pegar o trem, eu nunca saberei. Ali, também há um atalho para o outro lado do rio indo pelo lado da estação. É uma rua tão estreita que não cabem um ciclista e um pedestre ao mesmo tempo.

Penso neste tempo longe do meu país. Já fiz tanto, mas sinto como se não houvesse feito nada. Cobro inspiração dos deuses, mas eles são caprichosos. Ainda mais aqui, na terra de gnomos encantados. É preciso sentir o lugar. Para senti-lo, é preciso silêncio. Esse silêncio que ainda não fiz. Preciso fazê-lo. Só assim poderei ouvir a voz de Deus me dizendo se devo pegar o atalho para o outro lado do rio ou se embarco no primeiro trem em busca da minha alma.

Sobre a autora:
20170620_204127Alessandra Karla Leite é Jornalista, escritora, apaixonada por viagens, poesia e Literatura. Faz intercâmbio em Galway, Irlanda, desde Abril de 2017.

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