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Leandro Mota postou em 18 out 2016

Dublinmusic

Foto: DublinMusic

– Ah! Que alívio!
– Tava apertado?
– Demais! Sempre acontece quando eu venho aqui na Dado’s.
– É porque eles misturam água na cerveja.
– Sério?
– Juro! O primo do vizinho do flatmate de um cara lá da escola trabalhou aqui e me contou.
– Mas como eles fazem isso?
– Tem um sistema que faz a mistura segundos antes da cerveja chegar no copo.
– Rola isso até com essa que eu tô bebendo?
– Essa preta aí vem batizada de fábrica! Ouvi dizer que eles mandam os piores barris para cá. Aí cobram mais barato.
– Mas eu não sinto diferença no gosto.
– É porque você não tem paladar apurado para bebida, oras.
– Tem certeza?
– Cara, o dono do pub onde a namorada de um menino cuja mãe é amiga da patroa do meu flatmate abriu o bico e contou tudo.
– Certo! E aquela festa amanhã de madrugada? Vai rolar?
– Tô fora! Desisti. É perigoso demais.
– Por quê?
– Quem organiza aquilo ali é uma máfia de brasileiros. Eles controlam todo o mercado de entretenimento ilegal da Irlanda.
– Hã?
– Eles pagam propina para não serem presos.
– Oi?
– Administram uma rede de prostituição.
– Quê?
– Cada um fatura milhares de euros por semana.
– Como?
– São os traficantes mais respeitados da Europa.
– Cara, você não acha que tá viajando nessa hist……
– Xiiiiiiiii! Fala baixo! Aqui tá cheio de brasileiro. Alguém pode ouvir.
– Ok, ok. Quem te contou isso?
– Ouvi dizer.
– Então esquece isso aí e vamos tomar uma lá em casa.
– Tô fora. Onde você mora é perigoso. Só tem naná.
– Naná?
– Aqueles jovens que bebem o dia inteiro com o dinheiro que ganham do governo.
– Sério?
– E eles ainda recebem roupas e tênis de marca. Por isso estão sempre de moletom cinza. Daqueles bem caros.
– Tipo bolsa-família de grife?
– Isso! Nunca te falaram que eles embolsam ainda mais dinheiro por cada filho gerado? Por isso que tá cheio de menina grávida nesse país.
– Nunca vi.
– É porque você é cego. Meu ex-flatmate trabalhou com um irish que havia trabalhado com um escocês que havia trabalhado com um brasileiro que havia trabalhado com dois nanás. Ele me contou tudo. Eles têm esquemas para nunca precisarem procurar emprego.
– Que vida boa, hein? Quero virar naná.
– Você tem passaporte europeu?
– Tenho.
– Então é fácil. É só trabalhar dois anos na Irlanda. Depois disso você pode pedir demissão e dar entrada no seguro-desemprego vitalício.
– Simples assim?
– Ouvi dizer que sim.
– Quem te falou?
– Alguém que eu não lembro quem.
– Beleza. Não quero essa grana não. Tô feliz só por não precisar pagar pelo GNIB.
– Sorte sua, cara! Me disseram que a partir do ano que vem a taxa vai ser de seiscentos euros.
– Mesmo?
– E a comprovação de renda deve chegar aos quase dez mil.
– Jura?
– E o governo vai começar a cobrar pela água.
– É?
– E pelo esgoto.
– De verdade?
– E os bilhetes de ônibus também vão aumentar.
– Vixi.
– E vão reduzir as horas permitidas para estudantes trabalharem.
– Ai!
– E querem acabar com os seis meses de férias.
– Mas…
– Já te contaram sobre a proposta do governo para restringir entradas de brasileiros?
– Cara, você não acha que anda acreditando em muita coisa que falam por aí?
– Xiiiiiiiii! Fala baixo! Estamos sozinhos nesse toalete.
– E?
– Tá vendo aquele espelho quebrado?
– Sim.
– Não olha.
– Por quê?
– Ouvi dizer que a loira do banheiro é irlandesa.

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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