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Cultura

Músicos na Irlanda parte 4: Tocando em casas de shows e bares na Irlanda

postou em 16 mai 2016

Fala E-Dubliners!

Chegando ao último post da série “Músicos na Irlanda” (ou não! ;))! Falei sobre onde comprar seu instrumento musical na Irlanda, como encontrar uma banda na Irlanda e, finalmente, onde encontrar estúdios de ensaio por aqui também.

Agora que você já tem instrumento, banda e já ensaiou, está na hora de tocar nos bares e casas de shows daqui!

Bom, antes de tudo, assim como no Brasil, aqui é muito mais simples e mais fácil tocar em bares. Casas de shows funcionam quase que da mesma forma que as do Brasil: você precisa pagar um aluguel pela casa e cobrar entrada, se virar com venda de ingressos pra não ficar no prejú e aquela coisa toda. Portanto, vou focar nos bares, ou PUBS como dizemos aqui :).

A primeira coisa que comentei no post anterior foi sobre a grande vantagem de ser reconhecido pelo seu trabalho original e não apenas covers. Aqui você consegue tocar independente de fazer covers ou não. Obviamente, se você for tocar em um bar como o Temple Bar, os turistas estarão esperando alguns covers de músicas tradicionais Irlandesas, como Molly Malone, Whiskey in the Jar e Galway Girl.

Lad Lane ao vivo no Temple Bar

Lad Lane ao vivo no Temple Bar

Quando comecei a tocar em shows com o Medz, nós iniciamos com Event Managers (ou em português: “os caras que ficam organizando shows”), que eram conhecidos do nosso guitarrista (conhecidos, pois ele ia para gigs assistir outras bandas e acabou conhecendo esse cara e pegou o contato).

O que ele fez foi ligar pro cara e falar: “olha, eu tenho uma banda aqui, to te mandando umas gravações – se tiver algum slot available (espaço disponível), nos avise!”.

Já digo de antemão: durante um bom tempo, você não vai ser pago pra tocar. Esta maneira que comentei é a mais comum pra você ganhar experiência, porftólio e criar sua base de fãs, pra depois, sim, alugar uma casa de show e ter a garantia de que vai lotar pra você poder faturar. Ou seja, não é fácil, mas dá pra se divertir!

Bom, como estava dizendo, nosso guitarrista avisou ao Event Manager que estávamos disponíveis pra tocar e, no fim de semana seguinte, o cara falou: “tenho um espaço pra tocar aqui no Fibbers na quinta-feira, vocês serão a primeira banda – tão afim?”.

Medz ao vivo

Medz ao vivo

Assim como tudo na vida, temos que começar da forma mais humilde possível. O Fibbers é um bar que eu, particularmente, gosto muito. É aquele típico bar de rock, com todo mundo cabeludo, camiseta preta de banda e coturno. Mas é limpinho! O fato de tocar durante semana também leva a crer que não vai estar tão lotado. Ser a primeira banda também não ajuda, pois geralmente está mais vazio ainda.

É claro que topamos! O que a gente mais queria era tocar ao vivo. Sair do cafofo onde a gente ensaiava e tocar em algum lugar que tivesse cheiro de cerveja e ao menos uma pessoa presente que nunca tivesse ouvido nosso som.

Agora, em relação aos detalhes técnicos e de show, que me surpreenderam positivamente:

– As bandas geralmente começam por volta das 10 horas da noite, e tocam até 12:30am ou 1:30am, dependendo do bar. Cada banda tem mais ou menos 40 minutos de set pra tocar, ou seja, são aproximadamente 3 ou 4 bandas por noite (com mais ou menos 15 minutos entre elas pra montar e desmontar equipamento). Quando a banda é nova, eles dão geralmente 30 min pra banda. Em situações melhores, até 1 hora. Nunca vi passar disso nesse esquema.

– O Event Manager ou a banda que está fazendo o chamado Headline (banda principal, banda em destaque) fica responsável pelo backline (equipamento básico necessário: Tons/bumbo/pedestais da bateria, amplificadores de baixo/guitarra). A casa/bar já tem PAs, retorno e microfones, tudo ligado em uma mesa de som que é controlada pelo Sound Engineer (técnico de som).

– A primeira banda geralmente faz o soundcheck (passagem de som) junto ao sound engineer. No Fibbers, pra minha surpresa, TUDO é microfonado. Desde os amplis da guitarra, bumbo, chimbal, caixa, até os pratos da bateria. Sim, eles microfonam até o chimbal! As bandas que tocam posteriormente geralmente só passam por um teste rápido pra ver se está tudo ligado e sendo captado na mesa.

– A banda fica responsável pelo equipamento próprio, igual no Brasil: baixo, guitarra, pedais, cabos, pedal da bateria, baquetas, pratos, caixa etc.

Esse lance de ter 30-40 min por banda é ótimo porque fica muito mais dinâmico e dá mais aberturas pra bandas novas tocarem. Além disso, é um ótimo networking pra conhecer bandas e depois passar a tocar com elas (que aconteceu com a gente).

The Radioactive Grandma ao vivo

The Radioactive Grandma ao vivo

Nessa mesma noite em que tocamos, uma banda que gostei muito tocou com a gente: The Radioactive Grandma. Eles curtiram muito nosso som também e estamos quase sempre tocando juntos quando dá pra cruzar as agendas. Esse lance é muito legal porque proporciona um suporte muito grande de uma banda pra outra, desde emprestar algo em uma emergência (cabo, pedal, etc.), até indicar pra tocar em lugares. No Brasil, sentia que era o oposto – era uma competição, ego inflado de quem conseguia tocar em casas maiores, etc. etc..

Como falei, aqui você não ganha pra tocar, pois não se paga couvert e nem entrada. A entrada nos pubs é gratuita e você não precisa pagar quando tem banda tocando. Isso funciona muito bem pra quem quer explorar novas bandas – basta entrar no pub! E é ótimo pros músicos que querem divulgar o material pra gente nova, pois as chances de mais gente ir no show por ser grátis aumentam – win-win ;)

Bom, pra me ajudar nesse post, pedi pro Paul Kavanagh, que é um Event Manager aqui em Dublin e pro Johno, vocalista do Radioactive Grandma, me responderem algumas perguntas básicas relacionadas a esse post. Seguem abaixo as perguntas e traduções :)

P: “Acabei de começar uma banda. Como faço para começar a tocar em bares?”

Paul Kavanagh - Event Manager

Paul Kavanagh – Event Manager

“Basicamente, as três melhores maneiras de obter shows seriam: 1 – fazer alguma pesquisa e descobrir quais locais fazem showcase de bandas como Dimestore, Ruby Sessions, e entrar em contato com quem organiza esses showcases pra colocar sua banda em qualquer tipo de lista que eles têm . 2 – você pode reservar o local sozinho. Isso geralmente custa uma taxa de aluguel para o uso do local, técnico de som, etc. Isso pode sair caro se você ainda não tem uma base de fãs muito grande e geralmente só vale a pena fazer se você tiver certeza de que você vai ser capaz de encher o local. 3 – Entrar em contato com outras bandas e tentar entrar como banda de apoio (support band ou banda de abertura) para os próximos shows. É mais seguro nos números e se juntar com outras bandas para shows é geralmente o melhor caminho a seguir “- Paul K.

“A melhor coisa a fazer, a fim de começar a ter shows, presumindo que você tem músicas prontas para tocar para um público, é simplesmente perguntar nos pubs locais e/ou pubs que você gostaria de tocar. Comece simples, como um bar local ou em algum lugar você pode “testar o público” com o seu material. Procure um promotor de shows, eles geralmente estão em uma posição melhor para ajudá-lo com lugares pra tocar. Se você está em uma banda, então as chances de você conhecer outras pessoas que também estão em bandas é maior e você pode pedir pra ser a banda de apoio (support slot), mas é importante não se frustrar com bandas ou organizadores que não estão lhe oferecendo lugares pra tocar imediatamente. No geral, gigs pra tocar são fáceis de conseguir se você perguntar no lugar certo, mas nem sempre garantido. Educação e humildade são sempre bem-vindos ” – Johno (Radioactive Grandma)

Johno - Vocalista do The Radioactive Grandma

Johno – Vocalista do The Radioactive Grandma

P:  “Serei pago ao tocar na Irlanda?”

“Os promotores de shows geralmente costumam pagar as despesas de combustível e cervejas para a banda, caso a casa de show/bar tenha algum tipo de taxa para a noite. Pode não ser muito comum, mas realisticamente, se você é uma banda desconhecida, seu primeiro objetivo deve ser criar uma base de fãs para, então, poder reservar os seus próprios shows e cobrar entrada. A música é um estilo de vida que você escolheu, se você não declara impostos sobre os ganhos que você faz na música, então é tolice pensar que a música de alguma forma lhe “deve” algo na vida. Quando sua banda fica maior e passa a pagar seus impostos, aí sim, seus ganhos também aumentam” -. Paul K

“Ser pago com uma banda de músicas originais é algo que é mais difícil de alcançar do que, digamos, uma banda de covers (uma banda BOA de covers). Bandas cover geralmente ganham dinheiro porque eles, basicamente, reproduzem músicas que a maioria das pessoas sabe e podem, pelo menos, reconhecer, mesmo que as pessoas nâo gostem de 60% das músicas que eles toquem. É familiar e seguro. Estar em uma banda de música própria significa que você está tocando música que ninguém conhece, e você geralmente não ganha muito dinheiro para isso. Para a maioria, estar em uma banda significa ralar muito e pagar por isso – Gasolina, cerveja, comida, passagens etc.. Alguns locais pagam pelas despesas básicas, mas a maioria não. Outros bares não vão oferecer nada, a menos que você peça antes. Mas volto ao meu ponto inicial: encontrar um bar que conhece e gosta da sua música etc.. E se você estiver em uma banda que trabalha duro e toca muito, quanto mais seguidores, mais provavelmente você ganhará algo ” – Johno

P: “Quais os estilos de música são mais fáceis de encontrar um lugar para tocar? E os mais difíceis?”

“Obviamente, bandas cover se  dão melhor em certos locais, bares etc., mas não há um “estilo de música” específico que te faz encontrar gigs mais fáceis que outros. Há público pra maioria dos gêneros. Mais uma vez, é importante fazer sua pesquisa e encontrar bandas semelhantes ou promotores / locais que simpatizam com o estilo que você quer tocar.

Quanto mais pesado você for, menos provável é que um pub local vá contratá-lo para tocar para os frequentadores em uma noite de sexta-feira! Mas há locais como o Fibbers em que iria atender a faixas mais pesadas, ou mais extremas, por isso ainda é possível encontrar lugares pra tocar. Novamente, se você tiver amigos tocando em outras bandas com estilo semelhante, vocês podem compartilhar noites juntos e descobrir novos bares para tocar” – Paul K

“Tendo em conta as minhas próprias experiências de tocar por toda a Irlanda e ver um monte de bares e casas de shows, a maioria dos estilos de música são bem servidas, dada a exceção, talvez, de de black metal/core grind e outros tipos de música do gênero. Embora muitas dessas bandas na Irlanda sejam muito boas, não parece haver muitos shows baseados nesse estilo de música. No entanto, Rock, Folk, Indie, pop, música eletrônica, metal, trad etc., são bastante comuns e aceitos em quase todos os bares e casas de shows” – Johno

P: “Quais são as coisas importantes pra se levar em conta quando for tocar em um show?”

“Certifique-se de que o bar/casa de show está fornecendo equipamentos, caso você não esteja trazendo o seu, e tente sempre fazer uma passagem de som antes de tocar seu set. Pergunte ao técnico de som/organizador sobre o horário que você deve chegar e a que horas deve começar a tocar. Não chegue atrasado! Nunca pague um promotor para tocar. Se um promotor estiver usando você para fazer dinheiro e você não está vendo um centavo, caia fora!” – Paul K

“A coisa mais importante, na verdade, é se divertir. Não se leve muito a sério. Nem todo mundo vai gostar de sua música o tempo todo. E se você escrever músicas que você gosta, você deve tocá-las para si mesmo e aproveitar essa experiência. Na maioria das vezes, o público pode dizer se você se sente estranho ou não. Mesmo quem nunca ouviu suas músicas antes, normalmente percebe que você está cometendo um erro se você deixar que leiam sua linguagem corporal. Soa estranho dizer isso, mas se você está se divertindo e o público consegue “ler” isso em você, você fica mais à vontade. Você vai perceber que mais pessoas estão sorrindo para você, e ninguém gosta de tocar pra rostos inexpressivos ou para aquelas caras entediadas :) “- Johno

Boa sorte na busca de shows e espero ouvir mais bandas com músicos Brasileiros por aqui!

Sobre o Autor


Fundador e CEO do E-Dublin, Edu chegou na Irlanda em 2008, no ano pré-crise, pegou a nevasca de 2010 e comeu cérebro de cabra em Marrakesh. O Edu também é baterista da banda Irlandesa Medz.

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