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Crônicas da Ilha

Quando eu morrer quero ir para a Diceys

Leandro Mota postou em 15 mar 2017

A Diceys se tornou o ponto de encontro dos brasileiros em Dublin. Crédito: Alex T.

A Diceys se tornou o ponto de encontro dos brasileiros em Dublin. Crédito: Alex T.

Esqueça essa história de céu e inferno. Só existe um lugar para onde nossas almas vão após se desprenderem de nossos corpos, apenas um ambiente no qual todos pagam os seus pecados de forma justa, somente um recinto cujo clima proporciona descanso eterno na medida certa: 21-25 Harcourt Street, Dublin 2, Dublin, Irlanda.

Por isso, eu já decidi. Quero morrer em uma terça-feira. E antes das sete, claro. Não quero iniciar minha vida pós-vida com cinco euricos a menos no bolso (espíritos usam calça?). Aliás, para não correr o risco de ficar preso na fila, deixarei instruções para os médicos desligarem os aparelhos às cinco horas. Ainda vai dar tempo de fazer um esquenta no purgatório.

Já consigo me imaginar entrando lá ao som de Gusttavo Lima e dando de cara com a minha vó discutindo com o segurança porque não a deixaram colocar o casaco na mesa. Quando era viva, estava sempre com uma blusa de lã a tiracolo. Ela jamais se conformaria com uma ordem sem pé nem cabeça como essa.

– Tenha mais respeito comigo, seu gorila malcriado!

– Sorry, but I don’t speak your language.

– Vai pastar, vai!

Perto dali, ainda no andar térreo, tem aquela galera mais velha. Todos sentados à espera de algum garçom para atendê-los. Devem se sentir privilegiados por terem adquirido o plano ultra mega hiper super blaster premium da Unimed. Tolos. Se as coisas funcionassem desta maneira no paraíso, eles estariam gozando das mordomias do camarote, como eu havia feito há alguns meses. Curioso com o que se passava acima de nossas cabeças, “roubei” o stamp de uma francesa para acessar a parte chique da festa. Com o copo de cerveja molhado, transformamos o punho da moça em um carimbo VIP. Daí foi só encostar a mão dela nas nossas e, voilà, estávamos habilitados a subir na vida. Quando morrer, farei o mesmo. Estou ansioso para dar um forte abraço nos companheiros Joyce e Wilde. Imagine a muvuca naquelas escadas quando chegar a vez do Bono.

O bom dessa paraíso é que a área de fumantes é lá dentro mesmo. Desconfio que Bob Marley bate cartão no jardim que dá nome ao lugar. Foi ali também onde um amigo, em vida, pagou seus pecados. Um mês antes, a colega de classe que costumava ser a sua companheira de balada o flagrou com uma mexicana. Embora tenha ficado triste por perder a moça, costumava dizer que havia valido a pena, já que a conterrânea do Seu Madruga era “mais bonita do que a Paty”. Trinta dias depois, a situação se inverteu. Até hoje ele tem raiva daquele irlandês de dois metros de altura. “Só pode ser bomba, anabolizante para cavalo ou algo do tipo”. Se há justiça em vida, não quero nem pensar no que pode acontecer no julgamento final. Só espero que o juiz não se empolgue com o preço da cerveja antes de dar o veredicto sobre a minha pessoa. Que eu não seja levado à corte em um domingo.

Aliás, você acha que é coincidência a pint ser mais barata no último dia do fim de semana? Domingo vem do latim “dies Dominicus”, que significa “dia do Senhor”.

– Quero uma breja bem gelada. Eu mereço! Trabalhei seis dias seguidos e é hora de descansar.

– Seis euros, por favor.

– O QUÊÊÊÊ?

(CABRUUUUUUMMMM)

– Des-des-desculpe. Eu quis dizer ci-ci-cinco euros.

– Ousas explorar o seu mais poderoso cliente?

– Nã-nã-não… A pint é apenas trê-trê-três eurinhos.

– Muito caro!

– Dois e cinquenta?

– Dois euros e não se fala mais nisso.

– Si-si-sim.

– Graças a mim!

O paraíso é liberal e aceita todo o tipo de gente. Mas, obviamente, há uma separação subjetiva entre todos aqueles que passam dessa pra uma melhor. Na parte de cima, cercados de luzes, ficam os mais “comportados”. É o camarote reservado em nome de Buda, onde concentra-se boa parte dos nossos colegas de classe asiáticos. Certa vez, um amigo coreano sentiu-se tentado à descer. Ele queria fazer contato com fantasminhas de outras cores, mas desistiu quando percebeu que ali embaixo todo mundo só falava português ou espanhol.

A parte inferior do paraíso não tem nada de angelical. Por estar mais perto da casa do Tinhoso, as almas que ali vagam tendem a ter um comportamento mais “alegre”. Uma amiga, ligeiramente embriagada, trocou beijos com o segurança. Uma outra, encapetada, adicionou seis novas nacionalidades ao passaporte em uma só noite. Um parceiro tomou tapa na cara por falar mais do que deveria à uma espanhola. O outro, já descamisado, só não revelou a cor da cueca devido à intervenção da namorada. Tem também a história do casal que foi flagrado fazendo coisas demais em um dos cantos do recinto. Pergunte a qualquer um. Todo mundo tem uma história para contar sobre aquela parte específica do paraíso. TODO MUNDO! Qual é a sua?

Pai, mãe, parentes e amigos, caso eu me despeça de vocês precocemente, reparem no meu rosto. Se eu estiver com um sorriso no canto da boca, não chorem, não desesperem-se. Estarei MUITO bem, curtindo cada segundo do meu merecido descanso. Mas se minha feição estiver séria, com expressão de dor e sofrimento, rezem por um milagre, principalmente se for uma sexta-feira. Não quero desencarnar no sertanejo.

Sobre o Autor


Jornalista desde 2005. Trabalhou por oito anos na Rádio CBN. Fanático por futebol, cobriu in loco duas Olimpíadas (2008 e 2012), uma Copa do Mundo (2010) e outros eventos esportivos. Em 2009, ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por uma série de reportagens sobre preconceito e xenofobia na Europa. Certo dia, bebeu demais e acordou em Dublin. Ainda não descobriu como voltar para o Brasil.

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