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Meu Intercâmbio

Sensações quando a gente volta para o Brasil

Colaborador E-Dublin postou em 27 fev 2016

Todo mundo fala sobre a adaptação no país novo, como é a sensação de estar em uma cultura completamente diferente, as pessoas, os costumes… mas como será o retorno para casa após ter descoberto tudo isso durante os meses de intercâmbio? Será que a sensação é a mesma de quando saímos? E mais, o que esperamos encontrar na nossa terra natal quando esse momento chega? 

Nossa convidada de hoje é Barbara Passarelli, de Andradina, SP. Formada em Segurança da Informação e com 26 anos, ela acaba de retornar ao Brasil após um ano como intercambista na Ilha Verde!

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Foto: Arquivo Pessoal

Por Barbara Passarelli
Colaboração: Fabiano de Araújo

Eu trabalhava no Brasil como analista de implantação de projetos. Uma das principais intenções de fazer o intercâmbio, foi por causa da grande necessidade do inglês na minha área, que não é mais um diferencial, e sim um pré-requisito. Mas, é claro que eu também tinha curiosidade em conhecer outras culturas, viajar, viver o mundo, etc. Foi assim que comecei a planejar tudo um ano antes de embarcar no avião que mudou a minha vida.

Eu escolhi a Irlanda por inúmeros motivos, entre eles: inglês com base britânica, facilidade de viagens na Europa e um item de grande peso: o preço acessível. Minha intenção desde o planejamento até bem próximo do embarque era de ficar 6 meses na Ilha Esmeralda, mas eu logo descobri que a nossa vida se transforma quando iniciamos o intercâmbio, e que tudo pode mudar.

Tantas coisas acontecem, que normalmente não conseguimos imaginar nem 10% delas – muito menos o que podemos realizar. Por fim, acabei ficando um ano, até quando a saudade do Brasil falou mais alto. Sinceramente, eu estava muito curiosa sobre o tão falado “pós intercâmbio” e suas “facilidades” em encontrar emprego em nosso país.

Eu costumo dizer que o intercâmbio acaba sendo uma terapia sobre nós mesmos. Já que fazemos e passamos por várias situações e até trabalhamos em algo no qual jamais imaginaríamos, como ser garçonete, cuidar de bebês, limpar banheiro, pedalar como “rickshaw”, são apenas alguns dos exemplos.

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Foto: Arquivo Pessoal

Fora os vários sapos que você precisa “engolir” em nome de uma convivência melhor, e os sentimentos como a saudade – se mostrar forte para a família, dizendo que está tudo bem, quando na verdade se quer jogar tudo para o alto e voltar para a terra natal. Na minha opinião, além de tudo isso que passamos, o que vou levar dessa experiência, e vejo que já tem me influenciado muito, são as diferenças culturais entre a Irlanda e o Brasil.

Começamos a perceber coisas como “inocência” e “simplicidade”. Começamos a entender o motivo dos estrangeiros serem mais educados ou não, de serem frios ou não, serem alegres ou tristes. Na minha opinião, após morar 5 meses na casa de uma família, concluí que eles não são frios, apenas tem um modo diferente de demonstrar sentimentos e atração – aliás, podem ser bem calorosos, por sinal.

A cultura é algo que realmente vem de criação, com a história do lugar e é difícil de, no começo, a gente entender, porque no Brasil “isso” ou “aquilo” não poderia ser igual aqui. Quando voltei ao nosso país, tentei por várias vezes continuar com hábitos que adquiri na Irlanda, mas não adianta, as coisas não se encaixam no nosso Brazilian style.

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Foto: Arquivo Pessoal

As experiências que tive como intercambista foram as mais variadas possíveis, desde descer do avião em um país desconhecido, o qual eu não dominava a língua, às dificuldade com uma mala extraviada, a procura por acomodação, por trabalho… Tudo isso sem conhecer as leis, regras e, principalmente, sem dominar o idioma.

Tomar chuva, enfrentar o frio, quebrar o pé, demorar para me sentir membro de uma família totalmente diferente da minha, me adaptar às regras e costumes, conhecer 12 países e aprender que nada é por acaso, fora estar pronta para tomar decisões extremamente importantes, sem ter aquele apoio próximo de quem amamos. Essas são coisas que as minhas experiências na Irlanda me proporcionaram – e tudo isso me fazendo amadurecer inconscientemente.

Se tem uma coisa que eu não me arrependo de forma alguma, foi de ter realizado esse intercâmbio. Se fosse preciso, faria exatamente tudo de novo.

E quando chegou o momento de retornar, as inquietações não sucumbiram. Nesse momento surgiu a sombra do pós-intercâmbio, que me acompanhou durante toda a a viagem de retorno. Lá estava eu novamente, ansiosa para saber como seria, se encontraria emprego fácil, como diziam as pessoas, versus como seria encarar a crise que o Brasil tem enfrentado nesse momento.

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Foto: Arquivo Pessoal

Eu voltei querendo muito isso, ciente de tudo o que estava acontecendo. No voo eu chorava e ria, uma sensação de felicidade, dever cumprido, saudade e muita ansiedade. Ao chegar, tive que dar uma pausa uns 5 metros antes da saída oficial para encontrar meus pais, pois fiquei sem ar de tanta felicidade e emoção. Vê-los foi uma sensação indescritível, foi nesse momento que eu me dei conta que realmente estava de volta.

Nos primeiros dias, apesar de querer muito ver minha família e amigos, comer e fazer tudo o que eu estava com saudade, eu não conseguia me desligar totalmente da Irlanda. Eu vivia o fuso de lá, dormia no horário de lá, curtia os meus amigos de lá pelo Facebook. Era como se a minha vida ainda estivesse lá e os meus amigos e a minha vida daqui não faziam muito sentido.

Eu me sentia uma estranha no meio das pessoas, era como se ninguém me entendesse. Eu não conseguia assimilar como eu havia passado 25 anos da minha vida sem conhecer as pessoas extraordinárias que conheci na Irlanda e que, com certeza, eu vou levar comigo para o resto da vida. Mas agora existe um oceano entre nós.

A minha vontade era de largar tudo, fazer um dinheiro de alguma forma rápida e voltar pra Irlanda. Eu até acredito que o meu passaporte foi roubado no Brasil logo depois a minha volta, justamente pra isso não acontecer.

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Reprodução: Arquivo Pessoal

Essa confusão de estar de volta durou pelo menos duas semanas. Foi quando eu comecei a curtir mais a vida no Brasil, mesmo com a mente na Irlanda. Então eu comecei a me mexer, mandar currículos, procurar uma ocupação, ficar feliz em rever as pessoas e aproveitar tudo o que eu tinha por aqui. O retorno de alguns intercambistas da minha turma também me ajudou a entender que era hora de viver a minha vida aqui!

Para a minha sorte, percebi que a minha área não tinha sofrido tanto com a tal crise e que existiam vagas – muitas, por sinal. Porém, a corrida de muitos profissionais por uma vaga de trabalho acabou pesando negativamente na valorização desses profissionais, o que me fez perceber que, apesar das ofertas, estão pagando muito mal por elas.

Também constatei o que outras já afirmavam: as pessoas realmente te olham com outros olhos e te dão mais “valor” (talvez essa não seja a palavra certa) por você ter acabado de voltar de um intercâmbio. “O inglês está na ponta da língua, ela está respirando inglês ainda”, eles diziam. E não era mentira.

Demorei alguns meses para conseguir um trabalho, já que me deparei com muitas vagas que não condiziam com as minhas expectativas. Apesar da vaga que eu almejava ter surgido por indicação, demorei dois meses para realmente ser aprovada, já que existiam várias fases no processo de seleção e a fluência no inglês contou muito para a minha aprovação. Hoje atuo na vaga que eu quero e na empresa que eu desejava.

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Foto: Arquivo Pessoal

Comecei a trabalhar há exatos quatro meses depois do meu retorno da Irlanda. Sinto que tudo aconteceu no tempo certo, e esse período foi importante para a minha readaptação no Brasil, além de guardar na minha lembrança os bons momentos vividos no intercâmbio.

Ainda sinto saudades, mas são saudades de coisas que passei, coisas que vivi, momentos marcantes nessa trajetória, as brincadeiras com os amigos de moradia, o bate papo com os colegas da escola, o sotaque forte dos irlandeses e tantas outras coisas.

Coisas que não voltam, por mais que eu vá à Irlanda novamente. Planos para o futuro? Quem sabe? Ainda assim, não seria capaz de imaginar qual seria a sensação de descer no Dublin Airport, pegar o bus 16 até a Dorset Street e ir andando para minha antiga casa. Sentir aquele friozinho gelado no rosto, que só quem já viveu isso entenderá. Só de pensar me dá arrepios, seja de frio ou de emoção, sabe-se lá. Só sei que toda essa experiência valeu e valerá para a vida toda, algo que nunca irei me esquecer.

Ficou com vontade de fugir do Brasil pra fazer intercâmbio? Comece por aqui!

A série Meu Intercâmbio conta com a colaboração do repórter Fabiano de Araújo e tem o objetivo de dar oportunidade a estudantes que estão vivendo a experiência de intercâmbio na Irlanda, de contar suas histórias, alegrias e perrengues como intercambistas. Se você também quer compartilhar como tem sido a sua nova vida desse lado do globo, basta entrar em contato com: [email protected]

Revisado por Tarcísio Junior
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Este conteúdo - assim como as respectivas imagens, vídeos e áudios - é de responsabilidade do colaborador do E-Dublin e está sujeito a alterações sem aviso prévio. Quer ver sua matéria no E-Dublin ou ficou interessado em colaborar? Envie sua matéria por aqui!

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