Será que há diferenças entre ser gay na Irlanda e no Brasil?

Será que há diferenças entre ser gay na Irlanda e no Brasil?

Colaborador E-Dublin

4 meses atrás

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Assumir a homossexualidade pode ser algo muito diverso, a depender do local onde você vive. Numa cidade mais interiorana, por exemplo, o assunto ainda pode ser visto como tabu e com muito burburinho. Por isso, é muito comum algumas pessoas acabarem se mudando para cidades maiores a fim de respirar e vivenciar a sua sexualidade sem tantos dedos apontados para a sua face.

Porém, muitas vezes, é ao sair do país que percebemos como essas nuances de perspectivas tomam aspectos ainda mais pluralizados. Foi assim que eu descobri como é ser gay aqui na Irlanda. Um país ainda muito conservador, mas que tem dado passos importantes na direção do respeito às questões de gênero e, especialmente, sobre a temática gay.

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A Irlanda é um país ainda muito conservador, mas tem dado passos importantes com relação ao preconceito. © Prazis | Dreamstime

Confesso que, mesmo frequentando o mundo gay no Brasil, quando cheguei a Dublin, deparei-me com uma realidade totalmente diferente.

Para quem não sabe, até 1993, ser gay era considerado crime na Irlanda — e em 2015, ela entra para história como o primeiro país do mundo a votar, por meio de um referendo popular, o casamento igualitário. Com 62% dos votos, os irlandeses votaram SIM e, hoje, o casamento é um direito de todos, seja de casais de sexo oposto ou mesmo sexo.

Ainda mais recentemente, a Irlanda também surpreendeu elegendo Leo Varadkar, 38 anos, filho de imigrantes indianos e gay assumido, para o cargo de primeiro-ministro do país.

Diante de tantas mudanças, como gay, é inevitável não olhar para o nosso Brasil e perceber o quanto ainda temos que aprender com a Irlanda e tantos outros países que levam as discussões sobre gênero para escalas mais igualitárias.

Mesmo em São Paulo, que é considerada uma das cidades mais abertas ao público gay no Brasil, assusta o fato de um casal do mesmo sexo andando de mãos dadas ou, simplesmente, estar trocando um carinho. Isso ainda gera desconforto. Casos de violência igualmente continuam presentes nos noticiários nacionais, assim como a homofobia nas redes sociais.

Vale ressaltar que, por aqui, gay não leva “lampadada” na rua, ninguém tenta derrubar cartilha gay no congresso, não tem ninguém no governo abertamente intolerante e contra os gays, não tem homicídio cometido por homofobia na capa do jornal dia sim dia não e ninguém é demitido ou vira piada no trabalho por ser gay. Gays frequentam ambientes totalmente héteros com seus companheiros sem serem vítimas de homofobia, como também um hétero pode acompanhar seus amigos gays em um ambiente mais descontraído sem se sentir desconfortável ou com receio de ser descriminado.

Ser gay na capital irlandesa, de fato, é bem mais seguro do que ser gay na capital paulista. Andar de mãos dadas com o namorado na Dame Street ou O’Connell Street, em um sábado à noite, dificilmente relembrará alguém sobre os casos de hostilidade apontados por gays na Avenida Paulista, em Sampa — o mesmo palco que, por tantas vezes, levou o orgulho gay às ruas em busca da luta pelo direto igualitário é o mesmo que ainda registra insultos e agressões.

O interessante disso tudo é que, quando aconteceu a primeira eleição da Nova República no Brasil, em 1989, a Irlanda ainda era um dos países mais católicos e intolerantes com as diferenças do mundo. Ser gay era crime e até mesmo o divórcio só foi legalizado em 1994.

Até meados da década de 80, mães solteiras tinham os seus filhos arrancados de seus braços após o parto e enviados para orfanatos, enquanto elas eram forçadas a ir morar em uma das “casas lavanderias”, de responsabilidade da igreja católica, pois “desgraçavam” suas famílias. E esse país, que já foi considerado intolerante, frio e rígido no passado, hoje se tornou exemplo a ser seguido.

Isso mostra que, mesmo sendo um país mais tolerante hoje em dia, a Irlanda também passou por longos processos de intolerância, o que nos faz pensar que, de uma forma ou de outra, respeitando as devidas proporções de ambos os países, podemos acreditar que o nosso Brasil, pouco a pouco, também caminhará na direção de uma sociedade menos hipócrita, menos homofóbica e igualitária.

Fabiano de Araújo,

Gaúcho de carteirinha, mas catarinense de coração. Formado em Comércio Exterior, trabalhou 10 anos com exportação. Um belo dia, resolveu largar tudo e encarar um intercâmbio próximo aos 40 anos, como forma de entrar na melhor idade realizando sonhos. Apaixonado por viagens inesperadas, está sempre com uma mochila pronta para encarar desafios. Resolveu compartilhar sua aventura com os demais por acreditar que nunca é tarde para realizar sonhos.

Imagens via Dreamstime
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